Disco do Mês Março 2010: Josh Rouse – “El Turista”

 

 

 

 

 

 

Taí!… algum roqueiro que ousasse lançar um disco com um título desses dentro do universo do rock, já mereceria a atenção da “tribo”; agora, se esse roqueiro tiver o nome consolidado de Josh Rouse, famoso pelo cuidado e pela qualidade de seus discos, e soubermos que algumas músicas são cantadas – e bem cantadas – em espanhol, e o repertório inclui gemas do repertório de ninguém menos do que Bola de Nieve, o genial cantor cubano, considerado o Nat King Cole da ilha, então esse disco, no mínimo, merece uma resenha musical!

 Americano de Nebraska, o próprio Josh com a simplicidade típica daquele “buddy” que você não estranharia encontrar no pub da esquina – bem a propósito, sua última apresentação em S. Paulo, ocorreu em 2008 (ora vejam só!!!) no Sesc de Vila Mariana – define seu último disco como sendo o trabalho de um turista do Meio Oeste Americano que faz música brasileira (!!!) na Espanha; exagero ou não, alguns críticos mais respeitados situaram esse disco bem equidistante de um hipotético cruzamento entre Getz/Gilberto e Paul Simon (o da fase “Graceland”, claro). Residindo há quase 5 anos na charmosa Valencia (Espanha), com sua esposa, Paz Suay, a dupla empreende neste disco um tour global que passa por Brasil, Cuba, África e culmina em Nashville, onde o disco foi gravado; sem abrir mão da sofisticação e da profundidade musical de suas composições, o prolífero Josh assinala novos rumos em sua já cultuada carreira – que inclui pelo menos 2 trabalhos fundamentais: “1972” de 2003 e “Nashville” de 2005 – e oferece-nos um trabalho magnífico de desbravamento e pesquisa musical.

 Iniciando com a lindissima e instrumental “Bienvenido”, onde as influências hispânicas quase nos permitem sentir a brisa mediterrânica soprando e acariciando-nos a pele; as suingadas “Lemon Tree” e “I will live on islands”, por outro lado transportam-nos a um ritmo afro-cubano, que nos remete ao grande Paul Simon, enquanto em “Duerme Mobila” e em “Mesie Julian”, a influência cubana é direta, já que se tratam ambas de composições imortalizadas pelo já citado Bola de Nieve, embora o tratamento dispensado por Josh Rouse as faça soar mais como uma bossa dos anos 60 de João Gilberto. Em “Valencia” e “Las Voces”, Josh tem o auxílio da cara-metade, para compor, como o próprio nome indica, odes de deslumbramento ao país ibérico; e, antes do grandioso “finale” com o folk jazzístico de “Don’t act Tough”, que inclui um maravilhoso solo de sax conduzido por Jim Hoke, temos ainda a redescoberta de uma canção tradicional da Guerra Civil Americana, “Cotton Eye Joe”, obviamente desfigurada pelos arranjos modernos e luxuosos a que foi submetida. Poderia ser um coquetel indigesto, mas, pelo contrário, revela-se um disco de fantástica coesão musical e que já se constitui, sem sombra de dúvida, em um dos grandes lançamentos deste ano que ainda se inicia!

 

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