Extraído de artigo homônimo de Olavo de Carvalho: “Da fantasia deprimente à realidade terrível”

O que o país parece ainda não ter entendido é que toda esta situação crítica a que chegamos tem raízes e razões muito mais profundas do que simplesmente a tomada do poder pelo PT, que foi apenas o corolário óbvio de um estado de coisas iniciado desde 1970, quando os destinos do Brasil foram entregues a uma corrente político-ideológica que se empenhou sistematicamente em destruir a cultura superior do país e de modo especial a sua literatura, mediante a submissão de tudo às exigências estratégicas e táticas de Antonio Gramsci.

 

 

O entorpecente gramsciano penetrou no cérebro nacional a partir da publicação das obras do ideólogo italiano pelo editor comunista, Ênio Silveira, logo depois do Golpe de 1964. Na confusão geral que se apossou das esquerdas ante o fracasso de suas esperanças de cubanização rápida e indolor da sociedade brasileira, uma ala mergulhou na leitura das idiotices de Régis Débray e Che Guevara, torrando suas energias na “revolução impossível” das guerrilhas. Outra, mais esperta, recuou e apostou na estratégia de longo prazo que propunha ir conquistando o universo inteiro das artes, do ensino, da cultura, do jornalismo, discretamente, como quem não quer nada, antes de arriscar a sorte na luta contra o inimigo político.

O governo militar, obsediado pelo empenho de reprimir as guerrilhas, não ligou a mínima para esses empreendimentos pacíficos, aparentemente inofensivos. Fez vista grossa e até os apoiou como derivativo e alternativa aceitável à oposição violenta. A idéia gramsciana foi tão bem-sucedida que, já em plena ditadira militar, a esquerda mandava nas redações, marginalizando os direitistas mais salientes – Gustavo Corção, Lenildo Tabosa Pessoa – até excluí-los totalmente das colunas de jornais. O esquerdismo controlava tão eficazmente o sistema de ensino que a própria disciplina de Educação Moral e Cívica, timidamente instituída por um governo que se abstinha de estender ao campo cultural a autoridade de que desfrutava na área policial-militar, acabou fornecendo uma tribuna para a disseminação das concepções “politicamente corretas” – e esquerdistas – que vieram a forjar a mentalidade das gerações seguintes.

No teatro, no cinema e na TV, a autoridade da esquerda pode ser medida pelo poder inconteste de veto ideológico exercido na seleção das novelas da Globo – o mais vasto aparato de formação do imaginário popular – pelo casal de militantes comunistas, Dias Gomes e Janete Clair. Idêntica filtragem aconteceu no movimento editorial. Aos poucos, todos os autores não aprovados pelo Partico Comunista desapareceram das livrarias, das bibliotecas escolares, dos programas universitários, e isso ainda na vigência de um regime cuja fama de anti-comunista intolerante era apregoada aos quatro ventos pelos próprios comunistas que se beneficiavam de sua sonsa intolerância e omissão ideológica.

Em toda a esfera cultural, artística, escolar e jornalística, a única diferença que se viu, com o fim da ditadura, foi a passagem da hegemonia tácita da esquerda ao domínio explícito e, agora sim, intolerante.

Hoje, os jornalistas de “direita” estão todos na mídia nanica. Os poucos que ainda aparecem nas páginas dos grandes jornais são apenas colaboradores contratados. Nem entram nas redações. O total domínio de uma cultura por uma corrente política, qualquer que seja, constitui já um mal em si. Mas o que aconteceu no Brasil foi muito mais grave:

1-      Aquele domínio implicava, desde logo, o rebaixamento proposital do nível de exigência, em vista da ampliação semântica do termo “intelectual”, que no contexto gramsciano abrange a totalidade dos indivíduos, com qualquer nível de instrução ou Q.I., que possam atuar na propaganda ideológica. Daí derivou a promoção de sambistas, roqueiros, publicitários e strip-teasers ao status de “intelectuais” e culminou com esse descalabro que foi a promoção do Sr. Gilbero Gil ao cargo de ministro da “cultura”

(N.A.: Agora você pode entender melhor porque se reclama tanto do nivelamento por baixo verificado no país nos últimos 30 anos)

2-      O próprio termo “cultura” perdeu toda a acepção qualitativa e pedagógica, reduzindo-se ao seu uso antropológico como denominação neutra e geral das “formas de expressão” populares. Nesse sentido, o samba de roda do Recôncavo Baiano deve ser incluído, segundo aquele ministro, entre os grandes tesouros culturais da humanidade, junto com a filosofia de Aristóteles, a Catedral de Chartres e a Mecânica Quântica. “ Todo es igual, nada es mejor”

3-      De maneira mais genérica, toda diferenciação do melhor e do pior, do mais alto e do mais baixo acabou sendo condenada como discriminatória  e até racista. Milhares de livros e teses universitárias foram produzidas para consagrar como fundamento da cultura brasileira a proibição de distinguir ( que não obstante continuou sendo usada contra a “direita”)

4-      Para legitimar o estado de total confusão mental daí decorrente, introduziram-se os princípios do relativismoe  do desconstrucionismo, que, a pretexto de promover um pensamento supralógico, destroem nos estudantes até mesmo a capacidade de raciocínio lógico elementar, substituída por uma verborréia presunçosa que lhes dá uma ilusão de superioridade justamente no momento em que mergulham no mais fundo da estupidez.

5-      Uma vez amortecida a capacidade de distinção, foi fácil disseminar por toda a sociedade os contravalores que deram forma ao Estatuto da Criança e a outros instrumentos legais que protegem os criminosos contra a sociedade, criando propositadamente o estado de violência, terror e anomia em que vivemos hoje, e do qual a própria esquerda – que criou tudo isso – se aproveita como atmosfera propícia para o comércio de novas propostas salvadoras.

Uma corrente política capaz de rebaixar a esse ponto a inteligência e a capacidade de discernimento de um povo não hesitará em destruir o país inteiro para conquistar mais poder e realizar os planos concebidos em encontros semissecretos com movimentos revolucionários e organizações criminosas do exterior.

A “esquerda brasileira” – toda ela – é um bando de patifes ambiciosos, amorais, maquiavélicos, mentirosos e absolutamente incapazes de responder pelos seus atos ante o tribunal de uma consciência que não têm.

Está mais do que na hora do país retirar de uma vez o voto de confiança que deu a essa gente num momento de fraqueza fabricado por ela própria.

 

(Extraído do artigo de Olavo de Carvalho “Da fantasia deprimente à realidade terrível” , publicado no Diário do Comércio de 11/09 de 2006.)
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