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Florian Schneider – Kraftwerk (1947 -2020) – In Memorian

Florian Schneider, membro fundador do Kraftwerk, morre aos 73 anos

Instrumentista ajudou a revolucionar a música do século 20 ao trazer a eletrônica para o pop

 

 

KraftwerkFlorian Schneider (aquele que aparece em primeiro plano, em um patamar mais baixo na foto ao lado), membro fundador do Kraftwerk, morreu aos 73 anos. Poucos detalhes foram divulgados a respeito de seu passamento e a própria data de sua morte é uma incógnita. Revelou-se apenas que ela se deu pouco depois dele ter completado 73 anos após uma curta batalha contra um câncer. O músico, nascido em Öhningen, na Alemanha, fez aniversário em 7 de abril. Segundo o jornal britânico The Guardian, Florian morreu há uma semana (29) e foi enterrado em uma cerimônia reservada.

O fato das notícias terem vindo com grande atraso faz todo o sentido dentro de uma trajetória tão fascinante e cheia de mistérios como a do Kraftwerk, é um dos nomes fundamentais da música do século 20 e forte concorrente a banda mais influente de todos os tempos, ao lados dos Beatles, do Velvet Underground e de outros poucos nomes que realmente apontaram novos rumos para o pop e o rock. Teve até críticos que afirmaram que o Kraftwerk foi mais influente que os Beatles.

Como é que é?  Kraftwerk: mais influente que os Beatles?
Calma! Antes que beatlemaníacos tenham uma síncope, isso NÃO É uma comparação da importância histórica das duas bandas.
Em 2017, o crítico de música do jornal norte-americano LA Weekly, Tim Sommer, escreveu um ensaio provocativo: “Kraftwerk: mais influente que os Beatles?” O que Sommer quis dizer é que a sonoridade criada pelo quarteto de Dusseldorf se faz mais presente no pop contemporâneo do que a influência dos quatro de Liverpool.
Dê uma olhada na música pop em 2017. Olhe bem. Você perceberá que os Beatles deixaram de ser a banda mais influente do mundo Ocidental. O posto, hoje, é do Kraftwerk
Se pensarmos em como a eletrônica hoje domina totalmente a música pop, é difícil não concordar com a teoria.
Pegue a lista dos artistas pop mais populares do mundo de 2019 da revista “Billboard”: os cinco primeiros —Post Malone, Ariana Grande, Billie Eilish, Khalid e Drake— têm imensa influência de música eletrônica. Mesmo Khalid, que é, dos cinco, o mais ligado à soul music, tem uma óbvia pegada eletrônica nas batidas e na produção de suas faixas.

Afinal, não é exagero dizer que quase toda a música pop moderna e contemporânea deve algo aos alemães, mesmo que de forma indireta.

O Kraftwerk, desde o começo, acreditou na música eletrônica – a partir de 1973 eles praticamente aboliram o uso de instrumentos tradicionais em seus discos – e mostrou que era possível fazer canções profundas, dançantes e também de apelo comercial apenas com sintetizadores e ritmos elétricos. David Bowie foi dos primeiros a ficar fascinado pelo quarteto, algo que se comprovou nos discos “Low” e “Heroes” (com a música “V-2 Schneider“, uma homenagem direta a Florian), ambos de 1977.

Eles ainda influenciariam o tecnopop, o hip-hop (“Planet Rock“, o primeiro hit do gênero, foi construída a partir de “Trans-Europe Express“, que a banda lançou em 1977) e quase toda música eletrônica, que se desenvolveu a partir dos anos 80. Até Michael Jackson teria tentado trabalhar, sem sucesso, com eles.

 

Kraftwerk

Scheneider foi o grande mentor do grupo ao lado de Ralph Hütter, o único membro original que está no grupo atualmente. Florian deixou o Kraftwerk em 2008, e sua saída nunca foi bem explicada por Hütter.

Kraftwerk gravou pouco. São apenas 11 álbuns, em 50 anos de carreira, sendo que os três primeiros, quando eles misturavam instrumentos elétricos e eletrônicos, acabaram renegados e nunca ganharam relançamento em CD.

Desses, cinco podem ser considerados discos fundamentais para se entender a música pop: “Autobahn” (1974), “Radio-Activity” (1975), “Trans-Europe Express” (1977), “The Man Machine” (1978) e “Computer World” (1981). Todos com músicas muito conhecidas mesmo que indiretamente (trechos de canções deles foram muito usadas como vinhetas em programas de televisão ou de trilha de comerciais). “Electric Café”, de 1987, é um pouco menos celebrado, mas traz “Musique Non Stop“, uma das faixas mais conhecidas deles pelo grande público.

 

Além da música, o Kraftwerk teve uma grande influência na estética do pop. Ao cultivarem a imagem dos “homens-máquina” desprovidos de emoção, eles também ajudaram a criar a ideia da “música sem rosto”, onde a figura do artista e sua imagem, ficam totalmente em segundo plano – esse conceito chegaria ao ápice quando robôs criados à imagem de seus integrantes passaram a ser usados em sessões de fotos e até durante o bis de seus shows.

O Kraftwerk é uma das poucas bandas da história a ter criado um idioma musical, uma sonoridade tão única e revolucionária que hoje, 45 anos depois de “Autobahn” e “Radioactivity”, muito do que existe no pop carrega a marca deles.

Eles não foram os primeiros a fazer música eletrônica, longe disso, mas conseguiram adicionar elementos pop a um gênero musical considerado pouco acessível. Assim, os alemães influenciaram meio mundo: de Bowie a Nick Cave, passando por Pet Shop Boys, Eminem, Nine Inch Nails, Moby e Madonna. Do metal agressivo de um Rammstein aos sons atmosféricos de Portishead e Massive Attack. Do pop mais comercial aos experimentalismos eletrônicos mais obscuros e inacessíveis, tudo tem um dedo de Florian Schneider e Ralf Hutter.

Schneider esteve em duas ocasiões no Brasil com o Kraftwerk, ambas dentro do Free Jazz Festival. A primeira em 1998, quando deu uma hilária, e rara, entrevista para o Multishow, e em 2004. Tive a grata honra de ter estado presente à apresentação deles no Brasil, em 1998, quando abrindo para o Massive Attack, uma das bandas que mais se inspiraram nos mestres alemães em sua discografia, numa bobeada monstruosa dos organizadores do festival, mas que atendeu ao imenso apelo comercial de público do Massive Attack, no auge do sucesso naquela ocasião.

Já o Kraftwerk sempre foi genial, embora nem sempre – ou quase nunca, no Brasil, sejamos honesto – com o merecido reconhecimento. Isso não os impediu contudo de expor toda a genialidade num show inesquecível e de terem praticamente esvaziado o show do Massive que se apresentou em seguida. Não que o show do Massive tenha sido menos do que ótimo. Mas, era impossível ombrear com os Mestres que os inspiraram, naquela noite inesquecível!

Coisas que vi com meus próprios olhos. Ninguém me contou. Cenas geniais! Como o próprio Kraftwerk.

R.I.P.  Florian Schneider.

Fonte : Vagalume

 

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