A FÚRIA DA LUA (Luna Irae) – Poesia de Cláudio Fonseca

 

A FÚRIA DA LUA (Luna Irae)

Este é o luar magnético
dos loucos, dos assassinos,
dos ventos que nas ruínas …
uivam seus violinos.

Há nestas horas, mutantes.
Há um banquete encarnado.
Corpos que pendem azuis,
enforcados.

Este luar já nos viu:
a tua alma doente
a me levar pelas mãos,
como duendes.

Hoje que o aço de luz
atrai as larvas noturnas
e os profanos crivam metais
sobre as urnas

te levarei mandrágoras e almíscar.

E cobrirei de magia
a tua carne ferida,
em letargia.

E como um íncubo ávido
em potros esquartejados
pouso meus lábios, sangrando,
sobre os teus, necrosados.

E na ilusão que entre nós
ainda há uma esperança
revolverás como um verme
na ponta de uma lança.

Eu te direi que a saudade
que rói o teu corpo enfermo
rasgou também minha carne
com os seus dentes de gelo.

Que uma visão me persegue:
um Eu imenso e envolto
em gazes negras, olhando
o fundo abismo dos Mortos.

E sairemos… noturnos,
por onde outrora um jardim
colhi a rosa que guardas
em tuas mãos de marfim.

Contemplaremos a lua
flácida e solta no rio.
Verás… as águas não mais
refletem o teu corpo frio.

Sei que untarás o meu peito
com visgos entorpecentes
e afagarás minhas veias
com um amor de serpentes.

E escorrerá algo turvo
dos olhos teus doloridos
ao ver que ainda te guardo
os meus carinhos perdidos.

A tênue luz da manhã
te encontrará em meus braços
dentro da cripta. Círios
e os vitrais violáceos.

“Só pelo pó te libertas”.
A frase, em bronze e latim,
sai da parede, piedosa –
cai como agulhas em mim.

Mas não verás que esvaneço!

… E num fremir de paixão
um estilete de prata
cravo no teu coração.

 

                       A imagem pode conter: Cláudio Fonseca, em pé, atividades ao ar livre, água e natureza   Cláudio Fonseca ( in VITRAL) p. 89

CLÁUDIO FONSECA, nascido em Manaus (Amazonas), é professor universitário, economista e administrador, mas sobretudo artista e cultor das artes. Apaixonado pela literatura, música, arquitetura e artes plásticas, é também conferencista das áreas de literatura e desenvolvimento humano. Membro de várias entidades culturais, tem trabalhos publicados em jornais, revistas e antologias. Vários destes, premiados e traduzidos (seu livro de poemas VITRAL recebeu vários prêmios nacionais e internacionais e sua peça teatral BORGES, A LINGUAGEM DO SONHO, premio do Governo do Estado do Amazonas) atestam a qualidade de sua poética que tematiza, principalmente, a universalidade da condição e da natureza humana.

p.s.: Tive a imensa honra e o privilégio de ter sido colega e amigo particular de Cláudio Fonseca no curso de Administração da Universidade do Amazonas, de 1972 até 1975; é com muita emoção e um prazer imenso que reproduzo em meu site a belíssima poesia de meu amigo

 

 

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