Hamilton Alves : “Três Cisnes de Vidro”

Hamilton Plínio Alves nasceu em Florianópolis, Santa Catarina em 1931. Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1970. É Juiz de Direito aposentado e advogado. Trabalhou também como jornalista, radialista e professor universitário. É casado com Erna Maria Alves e tem três filhos. Em um país  sabidamente  refratário  ao  salutar  hábito da leitura, Hamilton Alves publicou vários livros através da  Bernúncia  Editora,  empresa familiar no  mercado desde 1997, com mais de 100 títulos publicados e com uma linha editorial variada que abrange títulos nas áreas de Saúde, Filosofia, Teatro, Poesia, Contos, Romances, Crônicas e Ensaios.

 

Bernúncia:

Animal fantástico do folclore catarinense, personagem na dança do boi-de-mamão, vivificado por dois ou mais indivíduos sob uma armação de madeira coberta por um pano colorido e munida de uma cabeçorra com uma grande mandíbula móvel por onde se “engolem” pessoas. Segundo Cascudo, proveniente de abrenuntìo “renuncio (ao diabo)”, termo de esconjuro, donde também as formas abernunça, abernúncia, abrenunza, bermunça, bernunça, bernunza, brenunça, brenúncia e brenunza.

http://bernunciaeditora.blogspot.com.br/ 

 

O  tocante conto  “Três cisnes de vidro”,  de  sua autoria, que  reproduzo  abaixo, é  tirado do livro  do  mesmo nome e além de explicitar um  agudo senso de observação das pequenas coisas do cotidiano que o rodeiam, sinalizam o gosto ora divertido, ora embevecido de Hamilton Alves pelo aprofundamento psicológico dos entes que lhe são queridos:

 

 

 

 

 

“Boto minhas quinquilharias sobre uma mesa pequena diante do sofá, onde frequentemente me estico, utilizando para encosto da cabeça uma pequena almofada. São livros escritos, correspondências, um pequeno vaso com uma planta exótica (não tão exótica assim), uma imagem de cupido em gesso, um cinzeiro (é bom que se informe que não fumo), um peixe de vidro redondo com barbatanas na cauda e na cabeça e com a boca aberta, e três cisnes de vidro. Normalmente, essas peças mantêm posição regular à mesinha. Mas os cisnes, interessante!, estão sempre mudando de posição. E essa mudança, na maioria dos casos, não sou eu que provoco; são outras pessoas. Já meditei sobre a análise dos gostos pessoais de cada um dos componentes do grupo mediante a distribuição dos três cisnes sobre a mesa. Creio até que isso poderia implicar em análises mais profundas, de caráter psicanalítico, ou psicológico. No meu caso, gosto de reuní-los próximos, cada um voltado de costas para o outro. Mas há quem aprecie outra posição, voltados de frente. Os dois voltados de frente e outro de costas; dois voltados de costas, o outro de frente; os três emlinha reta, dois voltados de frente, um de costas; dois voltados de costas, um de frente. Há ainda quem aprecie a posição mais rara, os três formando um triângulo, com a mesma sincronia, ou seja, dois voltados de de costas, um de frente, dois voltados de frente, um de costas.

A verdade é que não serei mais quem sou sem os três cisnes sobre a mesinha. São uma parte componente do meu sentimento estético. Gosto de formas, as mais bizarras. Creio firmemente que não sou ninguém (ou não sei existir, melhor dizendo) sem a presença de formas ou de antiformas. Estou cercado de objetos por todos os lados. Isso não é novidade. Todos estamos de certo modo (ou convivemos) com formas desde que nascemos. Mas há quem não se aperceba desse fato; ou só se aperceba inconscientemente. De preferência, aprecio as formas dissolutas, mas as que não o são não me desagradam. Os três cisnes de vidro têm formas muito certinhas. São certamente um produto industrializado. Um artista (que talvez nem se dê conta de que o seja) os concebeu tal como são, em fôrma. Depois os cisnes, em vidro, passaram por um processo final de acabamento em forno a  alta temperatura. A reprodução comercial lhes tirou a originalidade. Ou que não seja isso, lhes tirou a condição de peças exclusivas; a reprodução, obviamente,prejudica o ineditismo da obra. Ou melhor seria dizer: a raridade. Não são um único original.

Que poderia se dizer de Margarida (para falar da posição dos cisnes sobre a mesinha), que teima em colocá-los em linha reta, um ao lado do outro, separados por espaços regulares? Pelo convívio que tenho com ela, não posso entender esse gosto. Ou algo de misterioso existe em sua alma que ainda não descobri? Ela não é nem longe uma pessoa que se revele regular. Ao contrário, é um espírito oposto à regularidade, com sinais evidentes de ser amante de um certo sentimento anárquico. E que dizer de Jason que põe frequentemente os três de costas um para o outro? Seria uma demonstração de rebeldia à convivência? Mas ele parece tão amigo no relacionamento que tal hipótese nem é de se cogitar. Em geral, no caso de Jason, os cisnes, na distribuição que mantêm sobre a mesinha, não guardam qualquer simetria, como no caso de Margarida, já citado, em que, em geral, permanecem em linha reta. Ele os coloca bem distantes um do outro; já os vi certa vez ocupando posições extremas da mesa: um numa ponta, outro noutra ponta, e o terceiro ora fica mais ao centro, mais próximo à direita. Já tive a curiosidade de fazer uma análise mais profunda da personalidade de Jason para tentar ir ao fundo da questão: por que essa tendência de separá-los empontos extremos? Mas, por mais que tenha procurado essas razões, sem naturalmente, dar-lhe a entender que estou à cata de dados que me permitam detectar os motivos inconscientes, sinto que todo o esforço se torna baldado. Jason não é, com efeito, um temperamento dado à dissipação, ou à dissolução, que, à primeira vista, se poderia concluir ao exame de sua caótica distribuição dos cisnes. O detalhe de manter os cisnes distantes e notadamente de costas voltadas para a mesa poderia também denunciar uma tendência esquizofrênica à solidão. Bem verdade que Jason é uma pessoa solitária, pois na sua idade, em torno de 35 anos, era natural que tivesse casado, com filhos, etc. Mas, não. É também um temperamento recolhido, de pouca conversa. Se falarem com ele, responde; mas não alimenta papo. Parece estar sempre metido dentro de si mesmo. E não admite que se possa entrar, por menos que seja, na sua intimidade. Ou ele tem medo,pânico, que sua alma seja desnudada por outrem?

De Guiomar, que os coloca em triângulo, simetricamente, dois de costas, um de frente, a  análise possivelmente seria simples. Ela mostra certa reserva em suas opiniões, na maneira como conduz sua vida , nos contatos interpessoais, mesmo com as pessoas mais próximas. A seu favor diga-se que ela tem o poder de síntese sobre problemas que se apresentam às vezes tão complexos que a todos causa ao mesmo tempo estupefação e incompreensão, pois é difícil conciliar um espírito em geral esquivo no que diz respeito à sensibilidade estética com o poder de síntese que ela tem, com uma argúcia de espantar, sobretudo para o que quer que tenha um carater prático. Dir-se-á que as pessoas mais contemplativas ou que são mais facilmente atingidas pelo impacto de uma imagem bela são as menos dotadas para ver o lado prático dascoisas. Pode ser; não digo que não. O belo e o prático estão, inegavelmente, em campos opostos, mas não significa que estejam definitivamente divorciados. Quantas vezes um artista pode ter um espírito prático e, ao contrário, quantas pessoas existem que, práticas em tantas coisas, têm também o senso de beleza? Mas no caso específico da Guiomar dispondo sobre a mesinha os cisnes em triângulo, dois de costas para o terceiros e este de frente para os demais, ela mostra uma certa tendência à simetria. E quase sem exceção as pessoas com inclinação à ordem ou à uniformidade têm, no fundo, mais senso prático que outras.

 

Os quatro, com respeito à posição que os cisnes devem ter sobre a mesinha, vivemos em guerra, sem nos darmos conta de que, em outros tantos assuntos e questões, vivemos também a nos guerrear, porque cada um é, claro, marcado, por sua maneira de ser especialissima. Não fosse no entanto essa diversidade (tenho pensado tantas vezes), seria o tédio mortal. Se todos tivéssemos a mesma tendência, ou os mesmos gostos, ou idêntica sensibilidade, os cisnes teriam sempre a mesma distribuição, ou não se alternariam ora dessa, ora daquela maneira sobre o espaço.

E quando Margarida, Jason e Guiomar se engalfinham em introduzir essa mudança a cada dia – o que mim muito me diverte e agrada – permaneço alheio a manifestar a menor preferência que seja. Não serei, de conseguinte, um espectador frio desse conflito entre os três seres que comigo habitam este espaço, em que também, a exemplo dos cisnes de vidro, nos alternamos no dia a dia, assumindo igualmente diferentes atitudes e até posições sobre tantos problemas que nos tocam ou nos interessam de perto? Serei detentor de sentimento calculista ou um mero espectador dos dramas alheios e de pessoas que me falam de tão perto ao coração?

Não tenho meditado profundamente a respeito desse assunto. Todavia, inúmeras vezes me pergunto se conheço bastante bem o caráter de Margarida, de Jason ou de Guiomar, tanto tempo faz que vivemos lado a lado. O que se passa em sua alma? Ou o que sentem em determinados momentos? Ou como reagem a certas situações? Ou o que pensam de mim? Ou como me julgam no meu quietismo? Ou na forma que me conduzo em relação ao jogo que entretêm com respeito aos cisnes? Interessante que poucas vezes os vejo discutirem acaloradamente entre si sobre qualquer coisa. Mantêm em geral um relacionamento cordial, cada um procurando respeitar a liberdade do outro. E isso é, sem dúvida, uma prova de que são seres civilizados. São tão díspares, no entanto, em sua forma de ser, como bem revelam sua preferência pela posição dos cisnes sobre a mesinha, que o natural é que vivessem se engalfinhando em brigas. Dos três, Jason é o que me parece ter um caráter mais ligado ao sentimento do belo. E, no entanto, a julgar pela forma como dispõe os cisnes, à extremidade da mesinha, dois de costas para esta, um perdido pelo centro, ora voltado para o da direita, ora para o da esquerda, poderia se pensar que é um espírito bisonho. Já me adverti, porém, que essa tendência na distribuição dos cisnes de vidro, da parte de Jason, mostra de forma patente seu amor à assimetria, à anti-forma, ou às formas desequilibradas, incongruentes, revolucionárias.

Mas estou longe de catalogar essas almas em padrões rígidos. Nem me abalanço a afirmar que Guiomar, com sua natural reserva, não possa ser uma vez ou outra dona de uma grande sensibilidade. Pois outro dia, à janela, quando o sol se punha e tantas cores se produziam no horizonte, ela teve, de repente, um tal êxtase que me deixou atônito, eu que, tendo a mesma visão, me portei de maneira tão fria, tanto que aquela paisagem nada me dizia. Ela, ao ver o por do sol, teve a seguinte expressão: “Nenhum artista seria capaz de retratar tanta beleza!”

Suponho que Jason, com sua vocação à mordacidade, teria dito qualquer coisa de mau gosto à observação de Guiomar, do tipo: Ïsso é tão chocante que me faz doer a alma”. Jason, ao mesmo tempo que dá a impressão de habitar uma concha, fechada sobre si mesma, tem rompantes críticos assim, de puro desmancha-prazer. Margarida, por esse defeito dele (ou virtude), não o tolera. E os dois, apesar de respeitarem seus espaços (ou o espaço de cada qual), já estiveram em inúmeras ocasiões a pique de bate-bocas homéricos.

No último aniversário de Guiomar, fez-se uma limpeza da mesinha, recolhendo-se todas as peças que ali estavam, com receio de que alguma criança as quebrasse, ou não respeitasse a maneira pela qual estavam dispostas. Passaram-se dias até que os cisnes recobrassem o espaço que nela até então vinham mantendo. Me preocupei que Guiomar, Jason ou Margarida quisessem dar-lhes outro destino, ou que ocupassem outro espaço que não fosse este. Isso evidentemente me privaria dessa contemplação gozosa. Ou de acompanhar o conflito silencioso que os três mantêm na escolha por essa ou aquela postura dos cisnes de vidro sobre a mesinha, com que posso, de alguma forma, acompanhar a nuance ou sutileza de suas idiossincrasias.”

 

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