Inverno Despedaçado (Tout un hiver sans feu)

Embora o título em português, possivelmente inspirado pelo filme de Walter Sales de 2001, não desfigure o sentido do enredo, é certamente o belíssimo e poético título original em francês, “Tout un hiver sans feu”, quem entrega a chave para compreender esta belíssima co-produção belgo-suíça de 2004, premiada em Veneza, Locarno e em vários outros festivais, locada nos cantões suíços do Jura e do Neuchâtel.

 

 

A paisagem invernal dos Alpes, como pano de fundo permanente e inóspito, e, posteriormente, o interior ruidoso e caótico de uma usina , são apenas mais um ingrediente a serviço da história e a realçar o estado de espírito interior dos personagens, conforme as palavras do próprio diretor, o jovem e promissor cineasta polaco, mas residente na suíça, Greg Zglinsky .

Resultado de imagem para tout un hiver sans feuE a história é um drama rural que acompanha a trajetória de Jean, logo após ter perdido sua filha de 5 anos em um incêndio no estábulo da fazenda onde vivem, fato pelo qual se sente culpado, culpa essa que se acentua mais porque a esposa Laure não consegue superar a imensa dor da perda, e se recolhe a um mundo de negação, vizinho da infantilização, recusando sistematicamente a ajuda e a aproximação do marido; após o internamento voluntário da esposa, Jean busca superar a dor trabalhando numa usina da cidade vizinha e lá conhece Kastriot e sua irmã Lubinota, refugiados kosovares que imigraram para a Suíça após perderem seus familiares na guerra dos Bálcãs. É neles que Jean encontra forças para reaprender a alegria de viver e finalmente redescobrir a Primavera após um longo inverno sem fogo.

O filme privilegia os planos fixos e os detalhes significativos de longos silêncios e olhares expressivos, na tradição de grandes cineastas europeus como Antonioni, Bergman e Téchiné. e, na contra-mão de vários filmes humanistas recentes, que preferem realçar os valores femininos, condenando o homem a um papel secundário ou omisso, quando não francamente abjeto, aqui é a figura masculina nas suas “nuances”  mais elevadas que é esmiuçada pelo olhar profundamente psicológico do diretor.

Resultado de imagem para tout un hiver sans feuEstamos perto dos íntegros e graníticos personagens de John Ford: o Jean de Zglinsky não está tão distante do Ethan Edwards de “Rastros de Ódio”, como se as paisagens nevadas dos Alpes pudessem ressurgir na aridez escaldante do Monument Valley, ambas simbolizando os obstáculos a serem superados por personagens sempre viris e masculinos, mas nem por isso brutos e dessensibilizados. Logo na cena inicial, Jean assiste, entre impotente e consternado, à queda de uma árvore (castração?) na floresta perto de sua fazenda, enquanto um corvo ? símbolo mais do que identificado para a morte – foge assustado do local. É o prenúncio perfeito para tudo o que irá se assistir em seguida….mas, como é dito por Jean, antes de um final inteligentemente deixado em aberto, quando relembra um de seus últimos diálogos com a filha que temia esses pássaros, os corvos são como os seres humanos: “quando um macho encontra uma fêmea é para sempre…”

O elenco, de atores europeus quase desconhecidos no Brasil, tem no francês Aurélien Récoing um Jean contido e de extrema expressividade, que transmite à perfeição o dilema de um personagem confrontado pela perda mais cruel que pode atingir um ser humano, pelo abandono da amada companheira e pela inveja corrosiva da cunhada, mas que não desiste de lutar pela sua dignidade de ser um homem e de aspirar a uma felicidade que aparenta ser madrasta. Sem dúvida um filme belíssimo e pungente, indicado para homens que ainda acreditam que não é necessário ser um troglodita para afirmar sua virilidade, para mulheres que ainda não desistiram de encontrá-los, e para todos os que procuram um filme sensível e humano, distante da padronização e da superficialidade que assola o “mainstream” cinematográfico atual.

 

Resultado de imagem para tout un hiver sans feu

Paulo Monteiro

0 respostas

Deixe uma resposta

-
Sinta-se livre para contribuir!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *