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JOÃO GILBERTO (1931 – 2019)

 

Fala baixo, João…

E lá se foi João Gilberto.

Ontem e hoje li/ouvi algumas pessoas pedindo desculpas, mas afirmando que João era chato.

Que seu banquinho e violão eram insuportáveis.

Que sua voz sussurrada era monótona.

Fiquei matutando.

Penso que João Gilberto é um dos poucos motivos que o Brasil nos oferece para ter orgulho.

E até compreendo os que, coitados, o consideram “chato”.

João não era desse mundo.

João não era desse tempo.

João falava baixinho.

Disse alguém uma vez que a felicidade não devia ser gritada aos quatro ventos, mas sussurrada a poucos.

Em tempos de exposição exagerada do que devia ser íntimo, quando não se fala mais, apenas se berra, não com receio de que o outro não ouça, mas para abafar sua voz, seu murmúrio sutil era démodé

Em tempos de musicas redundantes, de decibéis escancarados, seu violão delicado, de poucos acordes preenchendo muitos silêncios, era fora de moda.

Em tempos de baticuns acústicos e eletrônicos, de tempos acelerados, sua batida sincopada era obsoleta.

Em tempos de desespero, de grito e de berro, João falava baixinho.

E sua voz tinha o sotaque esquecido dos bondes e bossas, dos Tons e tais, das garotas e praias que não existem mais, e de um Brasil que foi se desvanecendo pelo caminho e se perdendo de si.

Fala baixo, João, que esse tempo não te merecia mesmo…

 

(Joseph  Agamol)

 

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A canção brasileira é uma antes e outra depois de João Gilberto. Sua influência afeta o passado tanto quanto o futuro: foi só depois de João que se consolidou a ideia de uma história, um cânone da canção, de importância central para a cultura do Brasil. Foi ele também um dos principais responsáveis por situar a música brasileira em nova condição, antes de mais nada para nós mesmos, mas também aos olhos do mundo. Isso tem a ver com muitas coisas: a seleção do repertório, o modo de cantar, a forma de tocar, a exploração das relações entre palavra e música.

ARTHUR NESTROVSKI – Diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo

 

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João Gilberto Prado Pereira de Oliveira foi um cantor, violonista e compositor brasileiro. Considerado um artista genial por musicólogos e jornalistas especializados, revolucionou a música brasileira ao criar uma nova batida de violão com influências do jazz, para tocar samba: a “bossa nova“. O jeito suave de cantar, influenciado pelo jazzista Chet Baker, também foi visto como inovador no Brasil. Para a revista Rolling Stone Brasil,  João Gilberto foi o segundo maior artista brasileiro de todos os tempos, seguindo Tom Jobim (também músico e o compositor e arranjador dos maiores sucessos da carreira de João Gilberto.

Desde o lançamento do compacto que continha Chega de Saudade e Bim Bom, munido apenas da voz e do violão, começou uma revolução na música mundial. Dono de uma sonoridade original e moderna, João Gilberto levou a música popular brasileira ao mundo, principalmente para os Estados Unidos, Europa e Japão. Tido como um dos músicos mais influentes no jazz americano do século XX, ele ganhou prêmios importantes nos Estados Unidos e na Europa, como o Grammy, em meio à beatlemania.

Desde o início de sua carreira, João buscou o passado da música popular para sensibilizar o presente.

No canto, em sua divisão rítmica, João Gilberto declarou publicamente a influência que teve de Orlando Silva, que considerava o maior cantor do mundo. O uso de acordes soltos remetia à mão esquerda de Johnny Alf ao piano. O violão de Dorival Caymmi também influenciou a criação de João, que ainda buscou juntar o samba, a tradição musical nordestina e o jazz.

Segundo Jon Pareles, os vocais suaves de Chet Baker e os acordes de Barney Kessel estava presentes no estilo de João. O cool jazz também estava presente nas harmonias da bossa nova.

É difícil encontrar na história da música algum movimento que seja atribuído a um nome. João Gilberto fez isso com a bossa nova. Apesar da grande importância de Tom Jobim no movimento, João deu a forma, a possibilidade. Tom Jobim já era um grande compositor e arranjador antes da invenção joãogilbertiana. Entretanto, João também desmontou e reconstruiu Jobim, que assimilou a técnica de João e mudou o jeito de compor e de arranjar, tendo as mais diversas possibilidades criadas, tornando-se um ícone da música mundial, junto com João. Ainda se discute se a bossa nova é um movimento ou um estilo, um momento do jazz ou um capítulo da música popular brasileira. Sabe-se, somente, que João Gilberto é seu pai.

Jobim definiu o peso de João na música popular na contracapa do seu primeiro LP, Chega de Saudade, “Em pouquíssimo tempo, João Gilberto influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores.” A revolução de João Gilberto tornou possível o desenvolvimento do trabalho dos músicos modernos, como Jobim, abriu caminho para a nova geração, como Roberto Menescal e Baden Powell, e deu sentido aos músicos talentosos da década de 40 e início de 50, que tentavam encontrar uma forma de modernizar o samba através da imitação da música americana, como Johnny Alf e Dick Farney.

No âmbito nacional, qualquer músico brasileiro pós-1958 foi reinventado por João Gilberto. Isto é, João alterou, de forma irreversível, o DNA da música popular brasileira. Muitos se lembram do impacto que tiveram ao escutar João Gilberto pela primeira vez. Internacionalmente, João primeiro conquistou os músicos, e, depois, o público. Junto de Jobim, fez a bossa nova ser escutada nos quatro cantos do mundo.

Entre os grandes jazzistas fãs declarados de João estão Miles Davis, Stan Getz, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Dizzy Gillespie, Tony Bennett, Jon Hendricks, entre outros. A influência de João Gilberto no jazz é consenso entre críticos de música. Atualmente, percebe-se a influência de João em artistas como Stacey Kent e Diana Krall, que teve João como sua primeira referência musical e diz que não se pode ser jazzista sem aprender bossa nova. Fora do jazz, João recebeu elogios de famosos como Madonna, Jacqueline KennedyEric ClaptonSimone de BeauvoirJean-Paul SartreBob DylanBeckDavid Byrne, entre outros, chegando a influenciar movimentos como o indie rock e a dance music. Na Europa, João desfrutou de grande sucesso, sobretudo na Itália, onde fez inúmeros shows e, inclusive, especiais para a TV. Passou também pela Holanda, pela Inglaterra (que, nos anos 1980, teve um movimento chamado new bossa com bandas como Matt BiancoStyle Council e Everything But the Girl), França, Portugal, Espanha, Alemanha e Bélgica. João chegou até ao Japão, em uma série de shows, onde lotou casas de espetáculos e recebeu aplausos de até 40 minutos ininterruptos do povo japonês.

São vários os gêneros musicais influenciados pelo estilo de João. No Brasil, a Tropicália, a moderna MPB. Em âmbito internacional, a New Bossa, o Acid Jazz, o Drum’n’Bass.

Entre os acadêmicos, João é unanimidade, sendo objeto de estudo de grandes intelectuais como José Miguel WisnikLuiz TatitAderbal Duarte, Walter Garcia, Lorenzo Mammi, Edinha Diniz. Para Garcia, João está para a música assim como Guimarães Rosa está para a literatura, Oscar Niemeyer está para a arquitetura e Pelé está para o futebol.

Na cultura popular, João Gilberto é um ícone. Recebeu diversas homenagens na música, tanto em âmbito nacional quanto internacional. Tony Bennett se disse um grande fã seu. Foi requisitado para trilhas sonoras de filmes e produções de tv, nacionais e internacionais. Recentemente, um autor alemão publicou um livro tendo João como personagem. É tema de um documentário sobre o processo com a EMI. Sua figura era tão misteriosa que um perfil fake criado no Facebook conseguiu enganar até mesmo artistas e jornalistas famosos, fato desmentido pelo site oficial do artista..

 

Leia a Biografia completa de João Gilberto na Wikipédia

 

Quaisquer que sejam as novas direções de nossa música nova, não nos esqueçamos da lição de João.

Augusto de Campos

 

 

 

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