Agora, que já entrei nos sessenta, a minha mulher brindou-nos com um filho. Harrison ainda é bebé, mas já estou a vê-lo daqui a dez anos a fazer-me perguntas sobre a minha vida. Vivemos nas novas terras da Califórnia, mas ele vai ficar a saber que em tempos idos vivi dezenove anos num mundo chamado Laogai, na minha terra natal, a China.

“O que é Laogai?”, perguntar-me-á o meu filho. “Por que é que viveste lá tanto tempo?  Gostavas de viver nesse lugar? “Não, dir-lhe-ei, não gostava de viver em Laogai, não”.

Laogai é o nome tenebroso de um lugar também tenebroso – um conjunto de campos de trabalho forçado espalhados pela China. Só o nome me causa calafrios, tal como as palavras “Gulag”, “Holocausto”, “escravatura”. É assim com todos os lugares do mundo onde seres humanos fazem coisas horríveis a outros seres humanos.

 

Harry WU, um prisioneiro desses Campos de Concentração, que mostrou ao Mundo e expôs os horrores dos Campos de Concentração na China morreu em 26/04/2016. Este artigo é também em sua homenagem. 

 

“Por que é que te mandaram para esse campo?”, perguntar-me-á o meu filho um dia. “Se calhar cometeste algum crime…”Não, não era um criminoso. Era geólogo, licenciado pela Faculdade de Geologia de Beijing, tinha 23 anos. Tudo o que eu fiz foi dizer aquilo que pensava. Critiquei a invasão da Hungria pela União Soviética em 1956; disse que achava errado que um país comunista violasse os direitos humanos de outro país comunista. Em 1960, chamaram-me subversivo, oriundo de uma família reacionária e capitalista de uma escola católica. Fui obrigado a ir para os campos de trabalho e a abandonar as minhas convicções, a converter-me num homem novo socialista.

“O que é que fazias em Laogai?”, quererá o meu filho saber. “Comias o suficiente? O que é que fazias? Não estou bem certo se o Harrison me irá fazer estas perguntas em chinês ou em inglês. Em casa, eu e Ching-Lee falamos as duas línguas. Agora somos americanos, mas vamos ser sempre chineses. Talvez lhe conte esta história em mandarim, porque este lugar, este Laogai, é especificamente chinês.

“Uma vez estive numa quinta de Laogai”, direi eu ao meu filho. “Era a 1ª Brigada Geral Laogai de Beijing, mas era conhecida por Quinta Qinghe. Trabalhava todos os dias desde o nascer do Sol até ao sol-pôr. Todos os dias.”

“Na Quinta Qinghe, a regra era ‘boa comida para quem for aplicado, menos comida para quem trabalhar menos, quem não trabalhar não come’. Claro que a comida não prestava. Quando, por vezes, alguém não conseguia completar a parcela diária de trabalho que lhe tinha sido atribuída, os guardas reduziam-lhe a ração. Muitos amigos meus estão ali enterrados. Uma vez voltei lá para visitar as campas deles.”

“Voltaste a esse lugar?” vai o meu filho perguntar-me. Naquela idade, ele não irá entender o idealismo inconsequente dos meus cinquenta anos. “Claro que sim”, responderei eu. “Quando vim para a América, senti que precisava de lá voltar. Consegui entrar nalgumas daquelas quintas e campos de trabalho forçado sem que ninguém desse por isso para tirar fotografias aos prisioneiros. Quase ia sendo apanhado, mas tinha de visitar os meus amigos que ali tinham morrido, como Xing, o Tagarela.”Para onde mais é que foste em Laogai?”

“Durante nove anos trabalhei na Mina de Carvão de Wangzhuang, na província de Shanxi – doze horas por dia. Estávamos constantemente a inspirar o pó sufocante do carvão, todos os dias havia alguém que se magoava ou que morria num acidente. Houve um dia em que ruiu um telhado e fiquei soterrado debaixo de uma rocha que rolou. Pensaram que tinha morrido e até me arranjaram um caixão.”

“Por pouco não morrias?”, continua o meu filho a perguntar. “Ficaram abalados quando viram que eu ainda estava vivo”, dir-lhe-ei. “Só tinha sete ossos partidos”. Até hoje continua a surpreender-me o fato de o meu corpo ser tão flexível e a minha pele tão boa. Sou um milagre, um fantasma. Preciso contar ao meu filho como eram estes lugares. Vivendo ele na América, espero que não entenda a mentalidade de Estado-polícia que presidiu à decisão de me porem ali. Espero que tudo lhe pareça muito estranho.”O mais certo era seres um reacionário”, talvez diga o meu filho. “Que outra razão poderia levar os comunistas a escolherem-te? “Será uma reação natural.  As pessoas que vivem em países livres não conseguem perceber como é que um ser humano pode ser arrebanhado como um criminoso de alto coturno.”Não, eu era um homem comum, só que era um homem que pensava”, responderei. “Eles arrebanharam perto de um milhão de pessoas que participavam num movimento político. Um milhão de subversivos.”

“Nesses dezenove anos, a tua família costumava visitar-te?”, pergunta-me o meu filho. Ele vai ser criado na América e nunca verá a família do meu lado. A minha família – uma família rica e instruída de Xangai – foi separada e destruída. Agora digo-lhe a verdade. “Naquela sociedade comunista, o governo controlava a vida de toda a gente. Todos tinham de se vergar e obedecer. Quando o partido me acusou publicamente de ser um inimigo, todos, inclusive os meus pais, os meus irmãos e irmãs e os amigos, foram obrigados a condenar-me. Não tinham alternativa. Não os culpo por isso.” “Durante os anos que passei em Laogai, ninguém me foi visitar, à excepção do meu irmão mais velho, uma vez. De pé, acompanhado por um guarda policial, criticou-me por eu ser um elemento reacionário.””Como é que sobreviveste?”, quererá o meu filho saber. “Realmente não sei”, direi eu. “Talvez porque deixei de me comportar como ser humano para passar a comportar-me como uma besta. Passei a ignorar certo de número de conceitos, como a dignidade, a liberdade, o amor, o futuro, a família, a amizade e a bondade. Limitava-me a viver como um animal. O teu pai não foi nenhum herói, mas tão-só um sobrevivente.” “Alguma vez te deixaste ir abaixo?” “Sim, uma vez”, dir-lhe-ei. “Ao fim de cinco anos, achei que era melhor morrer do que continuar a viver. Em 1965, fecharam-me numa solitária, uma caixa de cimento com menos de um metro de altura por um de largo e pouco mais de metro e meio de comprido. Não havia cobertor, nem esteira, apenas uma tranca de ferro em frente.

“Contarei depois ao meu filho os métodos que eram usados para fazerem as pessoas vergar, métodos conhecidos em todo o mundo, em lugares como Laogai.”Nos primeiros três dias, e de acordo com o regulamento prisional, não nos dão de comer. Depois, ao quarto dia, dão-nos uma tigela de papas de cereais e um pedaço de rabanete – a teoria deles é que o preso fica tão reconhecido que, depois de comer, confessa. Isso significava que queriam que eu traísse os outros prisioneiros, que lhes contasse o que eles diziam e faziam. Mas isso eu não podia fazer.”

“Decidi pôr fim à vida de uma forma calma, tranquila, simplesmente deixando de comer, deixando-me morrer à fome, acabando com aquilo. Mas o guarda não deixou. Então disseram-me: ‘O partido não te verá morrer. A revolução socialista é humana, quer contribuir para fazer de ti uma pessoa útil.’ Introduziram-me à força um tubo pelo nariz, até ao estômago, e alimentaram-me até eu ficar suficientemente forte para querer viver. “Por agora já chega para o meu filho. Um dia contar-lhe-ei como é que lá voltei, tirei fotografias dos campos de trabalho, que ainda existem apesar de estarmos a chegar ao fim do século XX. Até que em 1995 fui apanhado na fronteira, quando tentava introduzir-me sorrateiramente no país a partir do Cazaquistão. Quando os americanos conseguiram tirar-me de lá após sessenta e seis dias de cativeiro, prometi à minha mulher que nunca mais voltaria a tentar fazer o mesmo.”Nunca mais irás visitar Laogai?”, perguntará o meu filho. “Não”, dir-lhe-ei a rir. “Já estou demasiado velho. Talvez um pouco mais sensato, mas continuo a ser um subversivo. “Agora faço subversão com as palavras. Continuo a viajar pelo mundo para denunciar o que se passa em Laogai, mas quero ficar em casa com a minha mulher e o meu filho. “Agora estás bem, paizinho”, dirá porventura. “Gosto muito de ti, toda a gente gosta de ti, por isso não te deixes atormentar por esse pesadelo. Anda, vem daí fazer lançamentos. “Noutros tempos, em Xangai, eu era muito bom no basebol, o desporto que aprendemos com os americanos. Durante muitos anos, nunca mais voltei a tocar numa bola. Agora, na velhice, o basebol entrou de novo na minha vida, na Califórnia.”Vou ver-te jogar na Liga Infantil”, direi ao meu filho. “Serei o teu maior apoiante. Olha, filho, estou absolutamente certo de que para ti nunca haverá Laogai, nem para a tua geração, mas terás outros problemas na tua vida, os tempos serão difíceis de uma outra forma. Vais ter de aprender a nunca desistir, a nunca te dares por derrotado.”

“Só mais uma coisa”, dir-lhe-ei ainda. “Quando fores grande, nunca te esqueças do que o pai te contou sobre Laogai. Nunca deverás esquecer-te desses lugares. A palavra tem de fazer parte do teu vocabulário em inglês. Na escola, deverás escrever sobre ele. E tens de contar aos teus amigos. Laogai é na China, mas os seus campos representam toda a crueldade que a vida pode encerrar. “Basta. Agora, vamos lá para fora fazer lançamentos.

 

 

 

 

Depoimento  de Harry Wu.jpg Harry Wu

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  1. […] os maiores genocídios da história? É “ódio visceral”. Você afirma que criaram o Gulag e o Laogai, rede de campos de concentração que superaram as mais macabras ambições dos nazistas? É […]

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