Léo Ferré (1916-1993)

 

Léo Ferré (1916-1993)foi um poeta, anarquista e músico franco-monegasco; o elevado nível poético das letras das suas numerosas canções costuma refletir um inconformismo radical de cunho anarquista e a qualidade da música e da interpretação situam-no entre os maiores vultos da moderna “chanson” francesa. Autor de duas grandes séries de canções sobre textos de Baudelaire e Louis Aragon, utilizou também poemas de Apollinaire e Rimbaud entre outros. Teve como amigo e parceiro em várias colaborações musicais, o também poeta, compositor, ator e cantor Jean-Roger Caussimon (1918-1985), a quem dedicou, inclusive, um de seus discos. A parceria, tanto musical quanto poética, entre ambos rendeu momentos memoráveis para a cultura musical francófona, como “Monsieur William” e a poesia de Caussimon musicada por Ferré que posto abaixo, sem dúvida um dos momentos mais belos e emocionantes que elevam a língua francesa aos píncaros do Olimpo artístico. Não resisti a fazer uma tradução pra lá de livre da lindíssima poética de Caussimon.

 

 

 

 

 

Nuits d’absence (Noites de Ausência) Música de Leo Ferré/ Poesia (e que poesia!) de Jean-Roger Caussimon

 

“Il est des nuits où je m’absente discrètement, secrètement

Mon image seule est présent, elle a mon front, mes vêtements

C’est mon sosie dans cette glace, c’est mon double de cinéma

A ce reflet qui me remplace, tu jugerai que je suis là

 

Mais je survole en deltaplane les sommets bleus des Pyrénées

En Andorre la Catalane je laisse aller ma destinée

Je foule aux pieds un champ de seigle ou bien peut-être un champ de blé

Dans les airs j’ai croisé des aigles et je croyais leur ressembler

 

Le vent d’été parfois m’entraîne trop loin, c’est un risque à courir

Dans le tumulte des arènes je suis tout ce qui doit mourir

Je suis la pauvre haridelle au ventre ouvert par le taureau

Je suis le taureau qui chancelle je suis la peur du torero

 

Jour de semaine ou bien dimanche tout frissonnant dans le dégel

Je suis au bord de la mer blanche, dans la nuit blanche d’Arkhangelsk

J’interpelle des marins ivres autant d’alcool que de sommeil

Cet éclat blême sur le givre est-ce la lune ou le soleil ?

 

Le jour pâle attriste les meubles et voilà, c’est déjà demain

Le gel persiste aux yeux aveugles de mon chien qui cherche ma main

Et toi tu dors dans le silence où sans moi tu sais recouvrer

Ce visage calme d’enfance qui m’attendrit jusqu’à pleurer”

 

TRADUÇÃO  MAIS  DO  QUE  LIVRE:

 

Há noites em que me ausento, discretamente..secretamente…

E em que só minha imagem está presente… e ela na minha frente…

Minha roupa e meu sósia nesse espelho..é meu dublê de cinema

E nesse reflexo que me substitui, pensarás que sou eu que estou lá!

 

Mas sobrevoo em asa delta os cumes azuis Dos Pirenéus a Andorra…

À Catalunha e deixo-me ir com meu destino

Calcorreio um campo de centeio, ou talvez, quem sabe, seja de trigo

Nos ares cruzei com águias e pensei ser igual a elas

 

O vento de Verão por vezes me entranha longe demais…é um risco a correr

No tumulto das arenas sou tudo aquilo que deve morrer

Eu sou o pobre rocim com a barriga aberta pelo touro

Eu sou o touro que avança e sou o medo do toureiro

 

Dia da semana, ou mesmo Domingo e eu trêmulo no degelo

Estou perto do branco mar, na noite branca de Arkhangelsk

Interpelo marinheiros bêbados tanto de álcool quanto de sono:

Esse pálido clarão de geada branca, será do Sol ou será da Lua?

 

O dia pálido entristece os móveis e vejam só já é amanhã…

Mas o gelo persiste nos olhos cegos de meu cão que busca minha mão

E tu, dormes no silêncio, onde sem mim sabes recuperar

Esse calmo olhar da infância que me enternece até chorar

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