Um dos maiores poetas brasileiros, Carlos Drummond de Andrade publicou “Mãos Dadas” em 1940, em meio à Segunda Guerra. O poeta pintava um quadro que 80 anos depois, tornou-se mais uma vez familiar: os seres humanos “estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças”.

Por fora, Drummond via as pessoas tristes, fechadas, recolhidas; mas sentia que conservavam dentro de si uma esperança possível.

 

 

 

 

MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco

Também não cantarei o mundo futuro

Estou preso à vida e olho meus companheiros

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças

Entre eles, considero a enorme realidade

O presente é tão grande, não nos afastemos

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história

Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela

Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida

Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes

A vida presente.

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