Medusa, Perseu e o poder da sombra

 

 

Na  Mitologia  da  Antiguidade  Clássica,  Medusa  era  um  monstro  terrível , uma mulher com cabelos de serpente, implacável, que petrificava com o olhar qualquer ser que aparecesse em sua frente. Já Perseu, era um herói, adorado pelos gregos antigos, e o único que conseguiu enfrentá-la e fugir à sua maldição. Num lance de esperteza e agilidade, cortou-lhe a cabeça  durante o sono, passando a usá-la como arma com a qual derrotava todos os adversários.

Unidos, representavam portanto o todo, a sombra e a luz convivendo juntas e, assim, simbolizando nossa ambiguidade e humanidade; a ambiguidade fazia parte do mito: o bem e o mal pareciam misturados no sangue da górgona. No instante em que foi decapitada, um jato vermelho esguichou de seu corpo e da poça sangrenta emergiu  uma criatura de inusitada elegância. Era Pégasus, o cavalo alado, que, durante a Renascença, seria celebrado como símbolo da arte e da poesia.

O que haveria no olhar da Medusa e em seu sangue, que fascinava e enregelava a Humanidade? Para Nietzsche, Medusa era o símbolo da realidade inumana e implacável do universo. Confrontado com a falta de sentido da vida, o intelecto humano fica sem ação, imóvel como pedra. Para Ovídio, a Medusa simboliza a injustiça divina – ou, para quem não crê nos deuses, a natureza irremediável da condição humana. E, ainda assim, o sangue da górgona derrota a morte; a sua silenciosacompanhia multiplica façanhas.

Talvez seja isto o que o mito quer nos dizer: o herói é aquele que, mesmo olhando de soslaio ou pelo artifício de um espelho, ousa não apenas enfrentar a verdade do mundo, mas aliar-se astutamente a ela. Quando faltam sentidos à existência, é preciso criá-los: só assim se segue voando com as sandálias aladas de Perseu. Mas, quem segura a cabeça da górgona entre as mãos, jamais voltará a ser o que era – a sombra, para o bem ou para o mal, vai acompanhá-lo. A prova disso está na Piazza Della Signora em  Florença. Lá se encontra a representação de Perseu e Medusa – umconjunto de bronze forjado por Benvenuto  Cellini , em 1545. Pouca gente percebe, mas os rostos do herói e do monstro são idênticos.

 

 

***  José Francisco Botelho é jornalista, escritor, tradutor, Mestre em Letras pela UFRGS e autor da coletânea de contos A Árvore que Falava Aramaico

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