O AMOR E A MORTE – Crônica de Carlos Heitor Cony

Esta é uma crônica do escritor e jornalista Carlos Heitor Cony, editorialista da Folha de S. Paulo e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2000,  que dedico à minha companheira de 44 anos, Rita:

 

” WITH  LOVE  WE  WILL  FIND  A  WAY ” 

( Pelo  amor  a  gente  acha  um  caminho) 

 

 

 

Rio de Janeiro – Foi em dezembro, dez anos atrás. Mila teve nove filhotes, impossível ficar com a ninhada inteira, fiquei com aquela que me parecia a mais próxima da mãe.

Nasceu em minha casa, foi gerada em minha casa, nela ela viveu esses dez anos, participando de tudo, recebendo meus amigos na sala, cheirando-os e ficando ao lado deles – sabendo que de alguma forma deveria homenageá-los por mim e por ela.

Ao contrário da mãe, que tinha alguma autonomia existencial, aquilo que eu chamava de “fungos fidalgos, como o Dom Casmurro, Titi era um prolongamento, o dia e a noite, o sol e todas as estrelas, o universo dela centrava-se em acompanhar, resumia-se em estar perto.

Quando Mila foi embora, há dois anos atrás, elacompreendeu que ficar mais importante – e, se isso fosse possível, mais amada. Escoou com sabedoria a dor e o pranto, a ausência e a tristeza, e se já era atenta aos movimentos mais insignificantes da casa, com o tempo tornou-se um pedaço significante da vida em geral edo meu mundo particular.

Vida e mundo que deverão, agora, continuar sem ela – se é que posso chamar de continuação o que tenho pela frente.

Perdi alguns amigos, mas foram perdas coletivas que doeram, mas, de certa forma, são compensadas pela repartição do prejuízo.

Perder Titi é um “resto de terra arrancado” de mim mesmo – e estou citando pela segunda vez Machado de Assis, que criou um cão com o nome do dono (Quincas Borba) e sabia como ninguém que dono e cão são uma coisa só.

Essa “coisa só” fica mais só, nem por isso fica mais forte,como queria Ibsen. Fica apenas mais sozinho mesmo, sem ter aquele olhar que vai fundo da gente e adivinha até a alegria e a tristeza que sentimos sem compreender. Sem Titi, é mais fácil aceitar que a morte seja tão poderosa, desde que seja bem menos poderosa do que o amor.”

 

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