O MAU SELVAGEM

 

 

Dizem que cada indivíduo é seguidor consciente ou inconsciente de algum filósofo influente. A crença de que as crianças têm um espírito intrinsecamente imaculado, deturpado apenas pela cultura e pela sociedade, deriva em grande parte do filósofo suíço do século XVIII, Jean-Jacques Rousseau. Ele acreditava fervorosamente na influência corruptora tanto da sociedade humana quanto da propriedade privada. Ele alegava que nada era tão gentil e maravilhoso quanto o homem em seu estado pré-civilizado. Precisamente na mesma época, percebendo sua falta de habilidade como pai, ele abandonou cinco dos seus filhos aos cuidados ternos e fatais dos orfanatos da época.

Resultado de imagem para a ferocidade dos yanomamiPorém, o bom selvagem descrito por Rousseau era um ideal e não a realidade de carne e osso que ele supôs: os primitivos povos caçadores e coletores são muito mais assassinos do que seus equivalentes urbanos e industrializados, a despeito de sua vida em comunidade e de suas culturas localizadas. Taxas anuais de 300 a cada 100 mil habitantes foram reportadas entre os Yanomani, no Brasil, famosos por sua agressividade; os nativos de Paua – Nova Guiné matam-se a ponto de terem as taxas anuais variando entre 140 e 1 mil para cada 100 mil habitantes. Contudo, o recorde parece ter sido mantido pelos Kato, um povo indígena da Califórnia, com 1.450 de cada 100 mil habitantes tendo encontrado uma morte violenta ao redor do ano de 1840. Os bosquímanos !Kung da África, romantizados nos anos 1950 como o “povo inofensivo”, tinham uma taxa anual de homicídios de 40 a cada 100 mil habitantes, que caiu mais do que 30% após sua sujeição à autoridade de um estado moderno. Esse é um exemplo bem instrutivo das estruturas sociais complexas servindo para reduzir, e não para exacerbar, as tendências violentas do ser humano. A evidência, portanto, sugere fortemente que os seres humanos se tornaram mais pacíficos, e não o contrário, com o passar do tempo, e com as sociedades ficando maiores e mais organizadas.

Resultado de imagem para o mau selvagemAlém disso, há evidências abundantes e diretas de que os horrores do comportamento humano não podem ser atribuídos tão facilmente à história e à sociedade. Isso foi descoberto, da forma mais dolorosa possível pela primatóloga, Jane Goodall, a partir de 1974, quando aprendeu que seus amados chipanzés eram capazes e estavam dispostos a assassinar uns aos outros (para usar uma terminologia apropriada para os seres humanos). Por causa dessa natureza chocante e da grande significância antropológica, ela manteve suas observações em segredo por anos, temendo que seu contato com os animais houvesse produzido esse comportamento não natural neles. Mesmo após ter publicado seu relato, muitos se recusaram a acreditar. Logo ficou evidente, no entanto, que o que ela havia observado não era nem de longe raro.

Resultado de imagem para gorilas selvagensFalando de modo direto: os chipanzés conduzem guerras intertribais. E mais, isso acontece com uma brutalidade quase inimaginável. O típico chipanzé adulto tem mais de duas vezes a força de um ser humano, a despeito de seu tamanho menor. Eles podem literalmente rasgar os outros em pedaços – e fazem isso. As sociedades humanas, com suas tecnologias complexas, não podem ser culpadas por isso. “Frequentemente, quando acordava durante a noite”, escreveu Jane Goodall, “cenas horríveis invadiam minha mente – Satan, um chipanzé observado durante longo tempo, fazendo uma concha com a mão abaixo do queixo de Sniff para beber o sangue que jorrava de uma ferida grande em seu rosto… Jomeo rasgando um pedaço grande de pele da coxa de Dé; Figan disparando e batendo sem parar contra o corpo abatido e tremulante de Goliath, um de seus heróis de infância. Pequenas gangues de chipanzés adolescentes, a maioria de machos, perambulam pelas fronteiras de seu território. Se encontrarem forasteiros (mesmo chipanzés que já conheciam e se separaram do grupo quando esse ficou grande demais) e estiverem em maior número, a gangue os ataca e destrói sem qualquer misericórdia.

 

 

Jordan B. Peterson em “12 Regras para a Vida (Um antídoto para o Caos)”

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