O MUNDO DOS DEUSES

 

 

Os primeiros mitos brotam da projeção imaginativa do que o homem faz das máximas funções da vida: nascimento, amor e morte; maternidade e paternidade; virgindade. E sintetizam tudo o que homem, mediante a inteligência e o sentimento, conseguiu conquistar em face de uma vida que ele aparentemente não solicitou, de uma morte que o amedronta, de um amor que o domina e de uma natureza cujos fenômenos (sol, chuva, cataclismos, doenças) o assombram, ou o aniquilam.

A mulher que gera torna-se a figuração da mãe universal, e a mesma divindade, por analogia de função, passa aos nascimentos da natureza toda, e é venerada como genitora e consoladora, como a Mãe Imortal. Será Gaia, a Terra, e depois Deméter. De modo semelhante, a função do pai será assumida por Urano, depois Cronos, e finalmente por Zeus (Júpiter), consagrado o pai dos deuses e dos homens. As demais relações, diretas e indiretas, com a existência e com o mundo tomam a figura de outros deuses e semideuses, que habitam o Olimpo, a superfície ou as entranhas da terra. Ao lado dos deuses familiares surgem os da guerra e da paz, da lavoura e dos navegantes, figuras as mais variadas que se vão condensando como reflexo de desejos, necessidades, fatos históricos, situações sociais e econômicas. Elas são a expressão profunda dos aspectos básicos da condição humana em si e das dimensões que esta assume no ambiente e no tempo.

Os deuses, por isso, compartilham com os homens alegrias, ódios e outros sentimentos. Zeus, apesar de sua majestosa paternidade, mostra-se fraco em face da paixão amorosa, e ama diversas mortais. Hermes (Mercúrio), o mensageiro dos deuses, pratica furtos. Ares (Marte), protetor das cidades, estimula guerras e carnificinas. Afrodite (Vênus), deusa do amor que tudo vivifica e da beleza que tudo sublima, trai sem cerimônia o marido Hefestos (Vulcano), deus do fogo. A Eros, que o mito primordial identifica com a força ordenadora do Caos, opõe-se Éris, a Discórdia, que tudo desagrega. E para conservarem a beleza e a juventude eternas, os imortais do Olimpo alimentam-se de néctar e ambrosia.

Ao se afirmarem na Grécia as artes plásticas (século VIII-VII a.C.), essas figuras elementares, que até então flutuavam na imaginação de todos e no cantos dos aedos, começaram a encontrar uma interpretação realista. Tão forte, porém, era o símbolo que as vivificava, que a imagem artística, materializada no mármore ou na pintura, não eliminou a concepção transcendente da divindade; pelo contrário, perenizou-a.

Esta fixação artística do mito não significou, entretanto, sua estagnação. Enquanto a civilização grega passava por transformações radicais, também o mito se modificava, em resposta às novas condições econômicas e psicossociais. Explica-se, assim, como um mesmo mito- ou um mesmo deus – tenha adquirido, ao longo do tempo, uma multiplicidade de significados e atribuições, que, hoje, são difíceis de compreender, ou parecem contraditórios. Assim também nasceram ou foram importadas outras lendas, que vieram combinar-se com os mitos primitivos, tornando ainda mais complexo e mais rico o mundo mitológico dos gregos.

Percebe-se, por exemplo, que os deuses que aparecem nos grandes poemas de Homero (século IX a.C.), Ilíada e Odisseia, já não são exatamente os mesmos das tradições anteriores. São mais diretamente interessados nas questões humanas e gostam de intervir nas vicissitudes dos mortais. Assim, em Hesíodo (século VIII a.C.) autor da Teogonia (e do tratado Os Trabalhos e os Dias ): quando apresenta a genealogia dos deuses gregos, nota-se a tendência a colocar uma certa ordem na confusa família das divindades, usando de um critério que muito reflete as condições econômicas e sócias da Grécia agrária daquela época. Já em condições diversas , nos séculos VI e V a.C., quando filósofos e dramaturgos manipulam a matéria mística, deuses e heróis depõem o halo de superioridade de que os cercara o mito primitivo.

 

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