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O REMÉDIO MAIS PERIGOSO DO MUNDO

 

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Ele atende pelo nome de oxicodona, que foi criada por cientistas alemães em 1917 e usada para anestesiar soldados feridos na Primeira Guerra Mundial, e hoje  é um remédio produzido por vários laboratórios e vendido com nomes diversos (os mais comuns são Oxycontin, OxyFast e Percocet). É um analgésico semissintético parcialmente derivado de uma espécie de papoula, a flor usada para fazer ópio e heroína. Por isso, esse medicamento e seus similares naturais, como a morfina, são conhecidos como opioides.

Resultado de imagem para oxicodonaEles variam na potência, mas têm os mesmo efeitos: anulam qualquer tipo de dor física, provocam uma curiosa mistura de relaxamento e euforia e são extremamente viciantes. Os opioides são tão viciantes que, nos Estados Unidos, o cerco a eles, fez com que muitos usuários migrassem para drogas ilegais, como a heroína (nome popular da diamorfina, um opioide derivado da papoula) o que fez com que o número de mortes por heroína quase quadruplicasse por lá desde 2010.  Os opioides são tão viciantes que, só nos Estados Unidos, 2 milhões de pessoas são dependentes deles, segundo dados do governo americano. É uma quantidade assombrosa de gente, o dobro do número estimado de viciados em crack no Brasil. Por seu lado, os opioides também matam – e muito. Só no ano de 2016, causaram 60 mil mortes nos EUA, incluindo as do cantor Prince e da atriz Carrie Fisher, a Pricesa Leia de Star Wars. É mais do que todas as vítimas de acidentes de trânsito e armas de fogo, somadas. Também é mais do que os mortos por aids, no pico da epidemia de HIV, em 1995. Um problema tão gigantesco que o governo dos EUA já classificou os opioides como “emergência nacional” e prometeu medidas para dificultar sua venda.

Mas como um remédio tão perigoso pôde chegar ao mercado e ganhar versões cada vez mais potentes sem que ninguém fizesse nada? A resposta é surpreendente: porque é quase tão antiga quanto a própria humanidade.

Os opioides sempre tiveram seus riscos. Mas a medicina sempre conseguiu uitlizá-los com certa segurança para tratar casos de dores graves, como as causadas por câncer, grandes queimaduras ou traumatismos. Nesses casos, eles continuam a ser indicados.

Nem todo o mundo que toma um opioide vai se viciar. Basta que ele seja prescrito e usado com cautela. Só que a partir da década de 1980 isso mudou, graças a um tremendo mal-entendido.

Em 1980, o médico Hershel Jick, da Universidade de Boston, teve a ideia de fazer um estudo sobre analgésicos usados em hospitais. Ele avaliou os registros de 11.882 pacientes que haviam sido tratados com opioides e constatou que apenas quatro deles haviam se viciado nesses remédios. Uma porcentagem baixíssima: 0,03%. O trabalho dele passou batido até 1986, quando foi citado na revista médica Plain, da Sociedade Americana de Dor. Daí tudo explodiu. Médicos, cientistas e – claro – laboratórios farmacêuticos começaram a usar os dados de Hershel para dizer que os opioides não eram perigosos e podiam ser receitados numa boa para diversos tipos de dor.

Por tal lógica, todo mundo que tinha algum tipo de dor crônica (não só os pacientes com casos graves) poderia tomar esses remédios. A imprensa logo embarcou na história e publicou uma série de reportagens exaltando a segurança e a eficiência daqueles produtos “maravilhosos”. Nos anos 1990, uma nova doutrina começou a ganhar força entre os médicos: em vez de apenas reduzir a dor crônica, como até então se fazia, o ideal era acabar com ela. Afinal, se existem analgésicos tão eficientes, e aparentemente tão seguros, porque não?

Só que todo mundo ignorou o óbvio: o estudo do Dr. Hershel era sobre pacientes internados, que recebiam doses rigidamente controladas dos remédios. Uma situação completamente diferente de pegar uma caixinha aleatoriamente na farmácia. Ninguém sabia como as pessoas iriam se comportar quando pudessem levar aqueles medicamentos para casa e tomar quantos eles quisessem.

Começava ali a epidemia que iria espalhar viciados pelo mundo, e inclusive pelo Brasil. As pessoas imaginam que só o crack destrói as pessoas, mas os dependentes de opiáceos também chegam destruídos aos consultórios. A pessoa deixa de trabalhar e estudar e passa a viver em função do remédio, chegando mesmo a cometer crimes para conseguir dinheiro e comprar os medicamentos.

Resultado de imagem para oxicodonaEssa epidemia alcançou o auge em 2012, quando os médicos americanos assinaram 289 milhões de receitas desses remédios. De lá para cá, com a pressão contra os opioides, nos EUA, o consumo caiu um pouco, mas se mantem elevadíssimo. Em 2016, foram 245 milhões de receitas na América, o equivalente a uma caixinha de remédio para cada adulto do país. Muitos médicos não sabem tratar a dor, nem têm tempo para os pacientes. É mais simples receitar um comprimido desses. Essa situação é agravada pelos planos de saúde que preferem pagar por remédios a sessões de fisioterapia ou RPG (reeducação postural global) que são mais caras, mas poderiam resolver muitos casos de dor crônica. E pelos laboratórios também, já que eles têm interesse em lançar e vender novos analgésicos.

Com a queda nas vendas de opioides nos EUA, os fabricantes estão se voltando para outros países – entre eles o Brasil. Nosso mercado é um filão largamente inexplorado, ainda, pois os médicos brasileiros não têm o costume, como os americanos, de receitar indiscriminadamente esse tipo de remédio. Por isso, por enquanto o Brasil é um dos países com menor consumo de opioides per capita.

Um dos maiores fabricantes de opioides, o Laboratório Mundipharma, que produz o OxyContin e pertence à milionária família americana, Slacker, reconhece que o abuso de opioides pode causar dependência e morte e diz que investe em treinamento para médicos e no desenvolvimento de tecnologias de segurança. O próprio Oxycontin já tem um mecanismo desse tipo: ele libera a oxicodona aos poucos, o que em tese diminuiria o risco de overdose. Na prática, não foi o suficiente para evitar problemas.

Para complicar um pouco mais o assunto, diferentemente de outros medicamentos com ação psicoativa, como ritalina ou Rivotril, o OxyContin não é tarja preta. Ele é vendido com tarja vermelha, a mesma usada para remédios bem mais corriqueiros.

Tudo isso vem colocando o Brasil na mira dos mercadores da morte. Enquanto a epidemia rola solta nos EUA, só há relativamente pouco tempo é que o alarme começou a soar por cá.

 

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