Quem impuser uma ditadura e não matar Brutus, ou quem fundar uma república e não matar os filhos de Brutus, governará somente por pouco tempo

(MaquiavelDiscursos)

 

“Meus caros, não se pode viver totalmente sem compaixão”

(Dostoievski, Crime e Castigo)

 

 

Esses dois pensamentos abrem e descrevem à perfeição o que é descrito em O Zero e o Infinito (no original, Sonnenfinsternis), um romance escrito por Arthur Koestler e publicado em 1941, que se tornou um clássico pela maestria com que retrata o código ético do dirigente comunista. Esse tema adquiriu certa relevância devido ao que passou à história com o nome de “Processos de Moscou”. Trata-se do fato de que dirigentes do Estado Soviético, tornados mundialmente conhecidos como teóricos do marxismo, confessaram de público terem traído a Revolução Comunista, coonestando dessa forma o próprio fuzilamento, que era a punição conhecida. No livro em apreço, Koestler formula uma hipótese que, embora do ponto de vista literário se tratasse de um texto excepcional, não podia ser aceita facilmente. No contexto ocidental, parecia uma enormidade. O curioso é que viria a ter uma comprovação surpreendente, como será referido.

“O zero e o infinito” passa-se em um país sem nome, dominado por um governo totalitário. Rubashov, um fictício e velho militante, é inspirado nos líderes bolcheviques aniquilados pelo regime estalinista durante o Grande Expurgo na União Soviética. O livro relata as reflexões do preso político e o processo que o conduz à morte. Ele percebe que sua situação mudou por completo quando é preso e julgado por traição. O embate dialético entre o indivíduo e a coletividade é o mote central de “O zero e o infinito”, o livro que provocou um verdadeiro cisma na esquerda europeia do pós-guerra. Visto como o romance fundamental sobre o período do Grande Expurgo stalinista e colocado par a par com obras marcantes do pensamento antiditatorial como “A revolução dos bichos” e “1984”, a obra-prima de Arthur Koestler mantém seu vigor ainda hoje – não por ter sido tomada como instrumento ideológico, mas por ser um fino estudo literário sobre um homem só diante de uma decisão impossível.

O escritor britânico George Orwell escreveu: “Rubashov poderia ser chamado de TrotskyBukharinRakovski ou alguma outra figura relativamente civilizada entre os velhos bolcheviques.”

Comunistas americanos e europeus consideraram O Zero e o Infinito como anti-estalinista e anti-URSS. Na década de 1940, vários roteiristas de Hollywood ainda eram comunistas, geralmente atraídos para o partido durante as crises económicas e sociais da década de 1930. De acordo com Kenneth Lloyd Billingsley em um artigo publicado em 2000, os comunistas consideraram o romance de Koestler importante o suficiente para evitar a sua adaptação para o cinema.

O autor, Arthur Koestler (1905/1983), austríaco de nascimento, foi caracterizado por Michel Laval, seu biógrafo, como L´homme sans concession (2005), isto é, como uma pessoa que buscou ser coerente ao longo da vida. Com efeito, aplicou-se com ardor nas múltiplas causas em  que viria a engajar-se. Assim, sendo de origem judaica, aos 21 anos de idade, em 1926, foi trabalhar numa das fazendas coletivas que estavam sendo organizadas na Palestina, experiência que considerou não  ter sido bem sucedida e à qual renuncia. Inicia com sucesso a carreira de jornalista e  assiste como correspondente ao começo da ascensão de Hitler ao poder, na Alemanha, dando-se conta do perigo que representava. Por entender que seria alternativa legítima, ingressa no Partido Comunista. Em 1932, é mandado a Moscou pela Internacional dos Escritores Revolucionários. Comintern Logo.svgPassa a trabalhar para o Komintern (Internacional Comunista)  e nessa condição é mandado a Paris participar da campanha antifascista. Nessa altura já revela desajustamento na nova condição. Mas, diante dos rumos que tomavam os acontecimentos, expressos sobretudo nos desdobramentos da guerra civil espanhola, vai para a Espanha com o propósito de contribuir para granjear-lhe apoio através da imprensa, acaba por ser preso e condenado à morte. Seria salvo graças a uma troca de prisioneiros. A partir de 1937, radica-se em Londres. No ano seguinte, devido ao desenrolar do último grande processo de Moscou, onde tem lugar a condenação (e a confissão) daquele que então se considerava um dos maiores teóricos do marxismo, Nikolai Bukharin –assim classificado no documento que viria a ser considerado como o “Testamento de Lenine”–, rompe em definitivo com o comunismo e começa a redigir O Zero e o infinito.

As sutilezas de tal natureza psicológica são descritas por Koestler, de forma magistral. O personagem principal, Rubachov, é uma síntese de vários dirigentes comunistas. Preso por discordar da brutalidade dos métodos do Número 1 (Stalin), o policial a que enfrenta é um velho companheiro seu que espera provar racionalmente o seu equívoco. Deixa-se abalar pela argumentação. Por força de sua lógica, Rubachov de certa forma adere ao método repressivo. Entende, entretanto, que precisaria ser “racionalizado”. Por isso, formula as linhas gerais de uma teoria explicativa do atraso da massa, em relação à vanguarda, o que imporia o uso da força para obrigá-la a aceitar um modelo de sociedade destinado a libertá-la de toda opressão. O acerto da liderança soviética comprovar-se-ia no fim do processo. Espera que o Número 1 lhe permitirá desenvolvê-la tranquilamente, já que é um reconhecimento do erro em que incidia ao dele discordar. Mas o policial “racional” (Ivanov) é substituído por aquele que de fato representa a máquina repressiva e recorre à tortura (Gletkin – o homem de Neanderthal). Rubachov acaba por assinar a “confissão” nos termos que lhe são impostos, na certeza de que outra posição seria colocar-se à margem da evolução da humanidade.

Os personagens do livro estão reduzidos  a trapos humanos, pela brutalidade do sistema O maior propósito da liderança soviética seria comprovar a validade da tese de que “os fins justificam os meios”, que se contrapõe frontalmente aos fundamentos da moralidade ocidental.

 

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *