Agora que está quase certo que entraremos num período de introspeção e recolhimento, talvez uma boa ideia seja aproveitar o muito tempo vago que haverá para fugir um pouco à mediocridade da música de massas atual e descobrir talentos nossos que nem suspeitamos que existam.

 

 

Dê um tempo nas “Anittas” e nas duplas sertanejas da hora – só um pouquinho, depois você pode voltar a curti-las – e descubra talentos extraordinários, genuinamente nacionais, como Priscilla Ermell, por exemplo. Saiba que os gringos, que estão atentos pro que de mais excepcional é produzido musicalmente no planeta, acabam de lançar por lá o disco denominado “Origens da Luz”, dessa paulistana, multimídia e antropóloga, com mestrado em ciências sociais – antropologia/música indígena; doutorado em ciências – sociologia da música negro-africana e pós-doutorado em antropologia audiovisual com o projeto “A Tradição Oral na Música Brasileira”.

Priscilla Ermel cresceu no seio de uma família de eruditos ligados à música e aprendeu a tocar cello e guitarra numa tenra idade. Já adulta, trabalhou como pesquisadora associada no Instituto Béla Bartók de Musicologia da Academia Húngara de Ciências de Budapest, Hungria (1985) e no Laboratoire d’ Ethnomusicologie (LACITO-CNRS), Paris, França (1996/1997). Atualmente trabalha como pesquisadora associada aos grupos: GRAVI e PAM do Departamento de Antropologia (FFLCH – USP) da Universidade de São Paulo, participando do Projeto Temático: “Musicar Local, Novas Perspectivas na Etnomusicologia” – e desenvolve projetos interdisciplinares nas áreas de música, arte-educação e antropologia audiovisual, atuando principalmente nos seguintes temas: antropologia audiovisual, antropologia das formas expressivas, etnomusicologia, composição musical e linguagens multimidiáticas.

Ufa! Com toda essa bagagem de respaldo, ela embarcou numa profunda viagem musical que passou pela musicalidade de Tom Jobim e Heitor Villa-Lobos para incorporar também o som da música indígena e até da música do mundo em geral. Desiludida com a música clássica e contemporânea europeia, ela passou longos períodos convivendo com as populações indígenas brasileiras, particularmente os índios Cinta Larga e Ikolem Gavião familiarizando-se com instrumentos musicais dessas culturas que posteriormente combinou com sintetizadores e outros instrumentos clássicos, como os já citados cello e a guitarra. Depois de estudar com o mestre taoísta, Liu Pai Lin, ela acrescentou as influências musicais do taoísmo a esse coquetel musical,  tendo sempre o foco nas raízes musicais da música brasileira indígena.

Esse é o objetivo de “Origens da Luz”, uma compilação organizada em dois álbuns feita por John Gómez a partir dos 04 trabalhos que Priscilla Ermel realizou entre 1986 e 1992.

É essa erudição e sensibilidade que perpassa todo o trabalho surpreendente de Priscilla Ermel, cujos arranjos lembram mais histórias curtas do que o tradicional repertório do cancioneiro popular. “Luar”, que abre a compilação, começa com o som de pássaros e o ruído de insetos, enquanto a voz clara e forte de Ermel surge no meio da música (aliás, o disco tem vocais esporádicos, algumas vezes até mais falados do que cantados), logo seguida pelo som da guitarra e os barulhos da floresta, como se a artista estivesse buscando um equilíbrio entre sua música e a complexidade da floresta.

 

Ocarina de Metal

 

A instrumental “Meditação”, conduzida pelo cello, pelo piano e pela guitarra acústica, lembra uma balada folk britânica e desemboca em “Campo de Sonhos” que junta dois mundos de uma só vez: a linha de sintetizadores ondula tipo música da indonésia, enquanto o cello parece saído de um recital de música clássica moderna; um toque elegante de piano conduz “Cristal de Fogo” que se situa a meio caminho entre a new age e a trilha de novelas.

A obra prima do disco, contudo, é “Corpo do Vento”, com quase 16 minutos e onde Ermel junta bumbos, tambores orientais, ocarina, a chirimiaum instrumento de sopro de madeira, semelhante ao oboé, trazido para as Américas do Sul e Central pelo religiosos espanhóis nos séculos 16 e 17 chilena e uma flauta nepalesa nos primeiros cinco minutos, para trazer piano e viola caipira à melodia e terminar com os tambores e os instrumentos de sopro rapidamente conduzindo a música a um clímax ritualístico.

Esse é um trabalho que condensa toda a riqueza da música popular brasileira e, ao mesmo tempo, um portal místico para outra dimensão. Fascinante!

 

 

Informações biográficas da artista coletadas do Lattes em 05/02/2020

 

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *