“Os Amores de Pandora” – (Pandora & The Flying Dutchman)

 

“O amor se mede segundo o que alguém está disposto a abandonar por ele”

 

Produção de 1951 da Metro, “Os Amores de Pandora”   (Pandora & The Flying Dutchman) é um desses tesouros bem guardados da época áurea de Holywood, que nos faz perguntar em que ponto do caminho o cinema perdeu a chave que desvendava o mundo mágico da delicadeza, através de diálogos com frases de imensa profundidade e imagens de inebriante beleza. Sem querer cair no lugar comum da nostalgia inútil e tediosa, não há como não concordar com a icônica colunista da época, Hedda Hopper, que colaborou com a divulgação inicial do filme, e assumir um aberto encantamento pelo “glamour” insuperável que nos hipnotiza na telinha, e como não suspirar  por um  tempo onde tudo parecia ser mais inocente e bastante menos vulgar –  ou, se não o era, pelo menos a “indústria dos sonhos”  daquela época  nos induzia a acreditar em tal fato – e que não retornará mais.

E, convenhamos, como é maravilhoso ainda poder acreditar em sonhos, delicadeza e magia, nem que seja de vez em quando….

Livremente inspirado na lenda de Pandora, a ancestral e mítica figura feminina que lançou todos os males sobre os homens, guardando numa caixa aquilo que os poderia salvar, e também na lenda do Holandês Voador (o “Flying Dutchman”  do  título original), um capitão do século XVII que, como punição por seus crimes, é condenado a vagar pelos mares em um navio fantasma, até encontrar –  ou reencontrar…  –  a mulher disposta a morrer por ele, o filme é talvez o título mais reluzente da curta filmografia do Diretor e Roteirista, Albert Lewin, ex-assistente pessoal do poderoso Chefão da Universal e da MGM, Irving Thalberg. Lewin,  um esteta culto e refinado, que primava por mostrar um aprumo literário e culto no tratamento de seus temas,  envereda aqui, com bastante conhecimento de causa,  pelo tema da reencarnação – muito abertamente até, embora seu enfoque, ousado na época, possa ter sido levado equivocadamente para o terreno fértil e incompreendido do fantástico e do fantasioso –  como chave explícita para a solução dos vários enigmas propostos pela trama.

Ambientado na década de 30 na Costa Mediterrânea da Espanha, numa comunidade de pescadores, convenientemente denominada “Esperanza”,  o filme retrata o cotidiano de um grupo de endinheirados turistas que ali residem e gravitam em torno de Pandora Reynolds (Ava Gardner) a  “femme fatale”   que, como lâmpada incandescente rodeada de borboletas, atrai os olhares e a cobiça de vários pretendentes masculinos e os arrasta para o abismo, enquanto espera sonhadoramente por um amor, que finalmente toma corpo na figura de Hendrick Van Der Zee (James Mason), o culto  e charmoso capitão da enigmática embarcação que aporta em Esperanza, para alquimicamente transformar em perdão e redenção aquilo que era desgraça na figura de Pandora.

Ava Gardner, “o mais belo animal do mundo” , na definição do poeta francês Jean Cocteau, mostra aqui a plenitude de sua paixão e sensualidade, e incandesce a telinha, imortalizada pela fotografia do britânico Jack Cardiff (1914-2009) – um dos ídolos confessos de Martin Scorsese – , mestre no uso do Technicolor nos anos 40/50, que pode aqui ser apreciado em todo o seu esplendor original, graças à restauração em Alta Definição do negativo de 35 mm, feita em 2009. São de cair o queixo as tomadas que abusam dos contrastes em cenas de tirar o fôlego, e os sombreados num visual que faz referência ao surrealismo pictórico do italiano Giorgio Di Chirico (1888-1978), que iluminam a figura semidivina de Ava/Pandora e servem de suporte à história de um amor que atravessa séculos e desafia a morte física, deixando-nos como farol os escritos iluminados de  Omar Khayyan  no  imortal  “Rubaiyat” :

AVA  GARDNER

 

“O dedo movente escreve e,

tendo escrito, segue:

nem toda a sua piedade ou juízo

poderão cancelar  meia linha…..

nem todas as suas lágrimas lavarão

uma palavra sequer….”  

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