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OS PRIMEIROS RUMORES DA PRIMAVERA (Poesia de Paulo Monteiro)

Quando  estaremos  preparados  para  acolher

Os Primeiros Rumores da Primavera?

 

 

 

Lá fora o sol derrete os derradeiros flocos de neve

E cristaliza recordações translúcidas nas folhagens

Em fugazes vestígios de sentimentos petrificados

Que o degelo diluiu, evocando o aroma dos lilases

(aqueles mesmos que outrora plantei em teu sexo)

Deixando no ar os primeiros rumores da Primavera

 

Rolos de nicotina libertam-se do “Camel” que fumo

Debruam círculos meditativos na aragem congelada

Enquanto o frio paralisa qualquer espécie de sentido

Exceto os que obsessivamente me trazem teu rosto

Emparedado no mural granítico das deslembranças

E um calor mortiço teima em inundar-me as artérias

 

E vejo teu corpo nu e evanescente

Silhueta diáfana na penumbra anil

Mas como ousaria sequer tocar-te?

Fui apenas mortal e tu, inatingível

 

 

E lembro quando sôfrego buscava alguma expressão

Que desnudasse em teu líquido olhar verde e glacial

Qualquer traço de afeto que não fosse de indiferença

Só via os anéis de fumo que hoje meus lábios exalam

E dois glóbulos escorregadios que jamais me fitavam

Mas desvelaram-me o tanto que também me querias

 

Não voltarás! E hoje que em pensamentos me caças

Já não te pertenço, nem às paixões que despertaste

Nem és tu a estátua de gelo que enxergo pela janela

Pois já cumprimos a sina de invernos desencontrados

Nas geleiras dos miasmas fossilizados em memórias

De um passado de logros que  só a si próprio pertence

 

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