PSICANÁLISE HOJE

 

Desde a década de 1990, a Psicanálise vem passando por um tempo de perda de prestígio e descrédito como forma de  tratamento das doenças psíquicas. Mas, há ago de novo que parece recolocá-la no posto que a  Psicanálise de fato merece estar. A corrente se reumanizou, deixou de ser, principalmente, uma investigação sobre o psiquismo e está se tornando cada vez mais uma investigação sobre o ser humano em seu inexorável contexto relacional.

 

 

A ênfase do tratamento também vem se deslocando do intrapsíquico para o relacional, com foco no chamado campo psicanalítico formado por analista e paciente. Acredita-se que este foco possa ser a esperança de que a Psicanálise seja o lugar no qual o homem contemporâneo vai encontrar respostas para suas inquietações, sem idealização ou misticismo, mas com um trabalho intenso e dedicado da dupla, à procura dos significados inconscientes que originam a vida psíquica das pessoas. Por meio da experiência relacional entre analista e paciente, a Psicanálise oferece uma segunda chance para que o paciente reative, reviva e entenda de uma maneira diferente os problemas de suas relações anteriores para que, eventualmente, haja a possibilidade de modificações das defesas e estratégias que este indivíduo  vai estruturando para sobreviver, psicologicamente, da melhor forma possível, apesar de tais recursos serem inadequados para o desenvolvimento psicológico. Seriam mais adequados à proteção do self do que às novas conquistas.

sta modificação, quando obtida, vai mais além do alívio do sintoma porque é uma mudança na maneira pela qual a pessoa pode ver suas relações humanas, compreendê-las no seu modo de estar nelas e modificá-lo, se este modo parecer inadequado. A Psicanálise se oferece, em última instância, para a possibilidade de ressignificação dos significados que determinam os modos de pensar  e as atitudes das pessoas. Este é o caminho pelo qual a relação terapêutica pode oferecer mudanças. E nenhum outro recurso terapêutico o pôde, até agora, porque não o pretende; é mais valorizado o alívio de sintomas, a retomada de certo grau de capacidade de trabalhão e, para ficar com os valores da moda, o “estar bem”. Nesse objetivo particular, a medicação cumpre um papel importante porque, de fato, as pessoas se sentem melhor em termos de ânimo para o trabalho e para a vida. Entretanto, elas não se tornam pessoas que adquiriram novos conhecimentos sobre si mesmas; sentem-se melhores apenas subjetivamente.

Então, o tratamento medicamentoso não transforma o ser humano em um ser melhor. Transforma-o em alguém que se sente melhor do que antes, no âmbito inteiramente pessoal, com algumas conseqüências favoráveis nos relacionamentos. Se uma pessoa está de bem com a vida, ela na verdade deve ser mais agradável para o trato, mais tolerante. Isto não é uma verdadeira mudança na maneira como uma pessoa se vê diante do mundo e vê o mundo diante dela.

 

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Uma proposta que a Psicanálise tem, e que não se repete em nenhuma outra abordagem terapêutica, é a mudança dos modelos de relacionamento, conscientes ou inconscientes, que as pessoas apresentam. Outra possibilidade a ser muito valorizada é a reumanização do ser humano, porque muitos indivíduos vão acumulando experiências tão negativas e desfavoráveis pela vida que começam a se sentir cidadãos inferiores, de segunda classe, sem direito ao que há de melhor, sem sequer poder permitir-se sonhar com algo maior, porque assim a vida foi demonstrando por meio de relações ruins, desfavoráveis, pouco valorizadas, ofensas e maus-tratos.

Numa relação com o psicanalista, essas condições que deixaram a pessoa um tanto esmagada, têm a possibilidade de ser refeitas e o paciente voltará a se sentir, ou se sentirá pela primeira vez, um ser humano melhor qualificado. Só esse interesse em saber do outro já tem a capacidade de dar ao outro um sentimento de que ele é valioso e visto como alguém qualificado, porque alguém, o analista, geralmente interessa-se por saber dele em detalhes e em profundidade.

A Psicanálise é hoje uma indicação de tratamento para problemas de auto-estima, mais do que no passado, quando era sugerida para a solução de conflitos psíquicos e de neuroses. Esse poder de revalorizar o ser humano nos tempos atuais tem muita importância porque parece que os hábitos e a maneira de viver da modernidade apreciam pouco o indivíduo, que acaba dissolvido nos padrões de comportamento e de tendências dominantes. É como se houvesse o esmagamento da individualidade como decorrência do mundo moderno. Então, a Psicanálise é hoje uma oportunidade em que se pode, com toda a clareza, perceber que é possível o resgate da individualidade e da auto-estima.

Conforme diz uma psicanalista norte-americana muito conceituada, Donna Orange, que utiliza o termo “compaixão amigável” para definir uma propriedade emergente de campos relacionais ou sistemas bem sintonizados entre pessoas, a hostilidade e o desprezo parecem surgir naturalmente de campos relacionais ou sistemas mal sintonizados.

 

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O termo compaixão em Psicanálise figurou completamente inesperado e até mesmo chocante, mas o trabalho de Donna Orange o colocou muito bem entre as concepções da moderna Psicanálise relacional. Antes de resgatar o termo, a autora a autora comentava a capacidade de compartilhar o sofrimento do outro, a que denominava “função psicanalítica de testemunha”. Compaixão não é pena, condescendência ou desatenta e falsa atitude fazer do outro um coitadinho. Abraçar os temas, contexto e complexidade em nossa teoria e prática, dá suporte à compaixão psicanalítica e constituem uma atitude e capacidade que o analista passa a trazer ao compromisso psicanalítico.

Compaixão não é técnica, e menos ainda uma regra técnica. Ao contrário, é processo e atitude. Como processo, equivale à compreensão emocional: é o processo dialógico de agüentar a situação com o outro e chegar a um entendimento juntos. Como atitude, habilita formas de experiências até então improváveis ou desconhecidas para paciente e analista. Formas implícitas e explícitas de participação no sofrimento do paciente criam um mundo de compaixão que introduz novas possibilidades de experiência.

Esta participação é uma forma de estar com e não uma fórmula para fazer Psicanálise. No lugar em que havia indiferença, humilhação, rejeição e perdas esmagadoras, o entendimento psicanalítico compassivo não apenas substitui ou cicatriza, mas vai prover intencionalmente uma nova experiência. Quando o analista trata uma pessoa com um interesse interminável por entendê-la e ao seu sofrimento como algo que vale a pena compartilhar, esta atitude de compaixão afirma, implicitamente,  o valor humano do paciente, por ele se sentir, talvez pela primeira vez, com dignidade de se ver tratado como sujeito de sua própria experiência.

Estas são, em síntese, algumas idéias que explicitam uma nova forma de pratica Psicanálise e que podem indicar a serventia desta corrente nos tempos atuais. Fica fácil perceber a importância maior atribuída à experiência afetiva vivida no campo da  análise, ocupando o lugar prioritário da cognição: trazer à consciência o que era inconsciente, levantar as barreiras da repressão, superar as resistências. O paciente não é, principalmente, um mistério a ser descoberto, um código a ser decodificado, mas sim, um personagem fascinante, formado num interjogo de relações humanas de altíssima complexidade, fortemente influenciadas por contextos variáveis.

Significado, vínculo, apego, contexto. Complexidade, relação, campo, experiência emocional e ressignificação passaram a ser termos mais ou menos comuns em conversas entre analistas e trabalhos publicados. Não se coloca a Psicanálise entre as ciências definidas pelas idéias de Descartes: mente monádica, autonomia do Eu, concessão à percepção do Outro, mente funcionando como o corpo, voluntariamente. Pensa-se na mente como uma construção coletiva, representando o conjunto dos valores de um grupo – a família, principalmente.

Perante tudo isso, não se ignora, e até se compartilha, a presença maciça da medicação psicoativa, produto de uma conjunção de interesses econômicos e hedonistas. Pacientes querendo não sofrer, querendo estar bem pelo menor preço, médicos recebendo muitos pacientes em seus consultórios e oferecendo-lhes mais medicamentos, indústria farmacêutica obtendo lucros estratosféricos, saúde pública diminuindo os custos, as filas e as reclamações. Enfim, uma nova era plena de conveniências. Entretanto, o ser humano merece mais e quando se der conta disso, quererá mais auto-estima, respeito, consideração e reconhecimento.

Este ser humano que poderá surgir, ou não, na era pós-farmacológica terá, certamente, um olhar muito mais valorizador sobre a Psicanálise.

 

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