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RELAÇÕES LÚDICAS

Brincar com nossas aflições, poses e seriedades é um dos melhores modos de remover o peso do sofrimento nas relações.

(Gustavo Gitti)

 

“Tudo o que temos aqui no templo é para nós, adultos, brincarmos. A coisa mais importante na vida é brincar; brinquem o tempo todo!”, foi o conselho que Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche, um dos maiores professores budistas, ofereceu a um grupo de crianças.

Serve bem para nós, não?

Lila, em sânscrito, significa brincadeira. Na filosofia advaita (não dualismo) lila é o esconde-esconde de Deus, da realidade, da vida, que brinca de ser árvore, brinca de ser vento, brinca de ser você e eu. Como nascemos da brincadeira, é impossível produzir algo realmente sério. Pode experimentar!. Em cada cantinho da vida você só vai encontrar construções lúdicas.

O que é o casamento senão uma brincadeira? O que são contratos de empresa? Nenhum “eu te amo” ou “eu te odeio” é realmente sério. Quando esquecemos que estamos brincando, começamos a querer ganhar como se fosse pra valer – concreto, definitivo, pesado, grave.

Sofremos de seriedade e autoimportância. É por seriedade que nos matamos em meio às brincadeiras, assim como um personagem facilmente mataria outro se não percebesse: é só uma peça. Nossas regiões de aflição são exatamente aquelas nas quais não conseguimos reconhecer a brincadeira, onde estamos birrentos. A liberação ou a pacificação de uma experiência coincide com o momento em que conseguimos gargalhar, brincar com aquilo. Às vezes, isso leva anos, mas por que demorar tanto para começar?

Estamos sisudos demais! Não estamos nos divertindo. Começamos a nos armadilhar em jogos cada vez mais complicados porque nos falta ludicidade ao lidar com os momentos mais simples e cotidianos.

Uma boa oportunidade para tal cultivo é o casamento. No meu caso, a M….., minha mulher,  é atriz e professora de crianças de três anos. Então, ela é muito boa com expressões faciais, vozes e imitações. Quando finge estar com raiva ou brinca de sentir ciúme, eu sei que ela está com algum nível de liberdade diante daquela perturbação. Com ela aprendi a imaginar situações (“Como faríamos para sair sem pagar deste restaurante?”), a olhar um velhinho bebendo sozinho no bar e dizer: “Olha eu no futuro, depois de você me largar”, descrever nossa vida após o divórcio, inventar diálogos e cenas. Não me refiro a tirar sarro ou a fazer piada com tudo, mas a lidar com situações complicadas. Ausência de sexo, por exemplo, só se torna um problema quando não conseguimos aceitar, olhar, aproveitar, brincar com aquilo. Sem ataques ou culpas, é possível se divertir: “Querido, vamos agendar a próxima transa? Sexta é um bom dia para você?”.

Se odeia atrasos, você pode conscientemente encenar o que reprimia, quem sabe enviando uma mensagem assim: “Se você atrasar, eu morro!” Usando uma caricatura teatral, ficará claro o quanto isso é ridículo e talvez o outro relaxe ao perceber que você está brincando com seu próprio obstáculo, em vez de validá-lo. O outro sentirá que atrasar para você é OK e será mais difícil para você teimar na seriedade.

 

Professor de TaKeTiNa (florescimento humano pelo ritmo). Clique no link para acessar seu site:

Gustavo Gitti

 

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