SIMONE WEILL (1909 – 1943)

A mística da contemplação de Deus na miséria humana

 

 

 

 

Simone Adolphine Weill (1909 – 1943) foi uma escritora, mística e filósofa francesa que, segundo as palavras de Maria Clara Luchetti Bingemer,  Doutora em Teologia, escritora e Professora do Departamento de Teologia da PUC –RJ, viveu além dos dilaceramentos da Segunda Guerra Mundial e da cruenta Guerra Civil Espanhola, as desumanas condições de trabalho fabril pós-Revolução Industrial e encontrou na vulnerabilidade da carne humana um caminho para a união com Deus e para a redenção.

Irmã mais jovem do matemático André Weill, Simone nasceu numa família judia não-praticante; e tanto ela quanto o irmão cresceram agnósticos. Revelando precocemente uma inteligência notável e uma personalidade excêntrica (recusava-se freqüentemente a comer por razões “idealísticas” e estava determinada a permanecer virgem), Simone já falava grego arcaico aos doze anos de idade. Aos 15, obteve um bacharelado em filosofia e passou três anos preparando-se para o concorrido exame da Ecole Normale Supérieure, tornando-se uma das primeiras mulheres a graduar-se numa Universidade.

 Resultado de imagem para simone weilEm 1931, Simone Weil tornou-se professora numa escola secundária para moças em Le Puy, onde ganhou outro apelido exótico: “Virgem Vermelha”, algo como um misto de freira e anarquista. Depois de dizer para suas alunas que “a família é prostituição legalizada… a esposa é uma amante reduzida à escravidão”, foi transferida de escola e de cidade e finalmente faz uma opção por trabalhar como operária fabril, onde vivenciou as lutas operárias na França do início do século. Nos anos 30, a intelectual Simone vive junto aos operários franceses a crise e o desemprego. São anos duros, decisivos em sua vida e que fornecem o combustível para reflexões que marcam toda sua trajetória como pensadora. Uma pensadora ferida pela verdade de que “nenhuma poesia sobre o povo é autêntica se a fadiga não estiver presente nela, assim como a fome e a sede nascidas da fadiga”. Em 1934, Simone passa a trabalhar na linha de montagem de carros da Renault, mas, frágil e franzina,  só resiste às  rudes condições de trabalho operário até 1935, quando uma inflamação na pleura a afasta da frente de trabalho; ficou tão traumatizada por sua experiência fabril, que abandonou imediatamente quaisquer noções românticas que ainda tivesse sobre o proletariado e sua (ou de quem quer que fosse) habilidade para ajudá-lo. Ela descobriu que a opressão não resulta em rebelião, mas em obediência e apatia – e até mesmo na internalização dos valores do opressor.

Resultado de imagem para simone weilEm julho de 1936, com a eclosão da Guerra Civil Espanhola, Simone juntou-se à causa republicana. Mesmo sendo míope e frágil, recebeu um rifle e foi incorporada a uma unidade de anarquistas. Sem nenhum preparo para a vida militar, ela quase que imediatamente enfiou o pé numa panela de óleo fervente e teve de ser resgatada por seus pais, que a mandaram para Assis, na Itália, para recuperar-se. Desanimada com as atrocidades que havia visto seu próprio lado cometer, Simone reafirmou seu pacifismo; em Assis, teve significativa experiência religiosa: “estando só na capelinha românica do século XII de Santa Maria dos Anjos, incomparável maravilha de pureza onde São Francisco rezou muitas vezes, alguma coisa mais forte do que eu me obrigou, pela primeira vez na vida, a me por de joelhos.

 

 

Resultado de imagem para simone weilO itinerário de vida de Simone passa a ser então, cada vez mais, um contínuo servir, um despojar-se, uma proximidade cada vez mais solidária com os pequenos, os humildes, os desprezados, os “párias” da sociedade. É nesse espírito que trabalha de servente em propriedades rurais, onde trata de vacas, colhe beterrabas e causa espanto em meio aos proprietários, pelo inusitado de suas iniciativas tidas como “excêntricas”. Forçada a parar de lecionar e de trabalhar por causa de constantes enxaquecas, Simone tornou-se crescentemente obcecada por questões metafísicas. Em acréscimo ao seu conhecimento enciclopédico que ia da poesia de Homero às últimas descobertas em teorias matemáticas, ela começou a estudar os maniqueus, gnósticos, pitagóricos, estóicos,taoísmo e o budismo. Devorou o Livro dos Mortos egípcio, e ficou tão impressionada com o Bhagavad Gita que começou a aprender sânscrito por conta própria. Posteriormente, ao ouvir um canto gregoriano num mosteiro beneditino enquanto sua enxaqueca estava no auge, ela “experimentou a alegria e amargura da paixão de Cristo como um evento real” – e pela primeira vez começou a pensar em si mesma como uma pessoa religiosa.

Com o início dos conflitos entre França e Alemanha em setembro de 1939, Simone Will, exilada no Sul da França não-ocupada,  passa a colaborar com a Resistência Aliada; é lá  que conhece o padre católico Joseph-Marie Perrin, que fica tão impressionado com os pensamentos dela sobre a cristandade que a convida a batizar-se. Simone, todavia, recusa a oferta afirmando que “não quero ser adotada por um círculo, viver entre pessoas que dizem ‘nós’ e ser parte de uma ‘gente’, descobrir que ‘estou em casa’ em quaisquer cercanias humanas, sejam lá quais forem… sinto que é necessário e ordenado que eu deva permanecer só, uma estranha e uma exilada em relação a qualquer círculo humano, sem exceção”. O padre Perrin a apresenta então a Gustave Thibon, um teólogo leigo que administrava uma colônia agrícola católica. Lá, distante dos pais que estavam em segurança nos Estados Unidos, ela pode praticar o ascetismo do modo como sempre havia desejado: trabalhou nos campos e vinhedos durante a colheita ao lado dos camponeses, dormia num saco de dormir no chão e se alimentava somente de cebolas e tomates. E também escreveu – muito. O resultado de sua tentativa de fundir antigas idéias gregas sobre o impessoal e o contemplativo com o catolicismo, é um corpo de pensamento que parece ao mesmo tempo insano e verdadeiro..

Resultado de imagem para simone weilCom seu estado de saúde piorando gradativamente, ela ainda assim faz um derradeiro esforço para compilar suas ideias sobre a tão sonhada “sociedade sem opressão”; o resultado é seu último livro, “O Enraizamento”, em que, apesar do tom histérico, Simone reafirma seu posicionamento: “antes que a sociedade possa ser regenerada, devemos reconhecer que cada problema social é um sintoma de um profundo “desenraizamento” (um estado mais ou menos similar à vida puramente vegetativa), produzido por – naturalmente – dinheiro, “mecanismo”, ciência e tecnologia, todos eles  divorciados da vida e através do uso da força. A política deve ser algo mais do que impor uma ideologia sobre a tática particular de um grupo social que queremos levar adiante, conclui Simone. Deveria ser uma reflexão inteligente sobre a realidade, conduzida por pensadores profundos.”

Resultado de imagem para simone weilPouco depois de terminar “O Enraizamento”, ela escreveu em seu diário: “dado o dilema geral e permanente da humanidade neste mundo, comer até que se esteja saciado é um abuso (E eu tenho sido culpada muitas vezes.)”. Aparentemente abraçando o ideal cátaro de morrer antes de sucumbir às tentações da carne e ao desejo de poder, Simone recebeu um diagnóstico de tuberculose em abril de 1943. Enviada para um sanatório no campo, recusou-se a se alimentar, insistindo que suas refeições deveriam ser mandadas para a França. Morreu de parada cardíaca aos 34 anos de idade no Sanatório Grosvenor, em Ashford, Kent (UK). Uma rua da cidade foi batizada com o seu nome.

 

Acesse  também  o  site dedicado à divulgação do pensamento de SIMONE  WEILL:

www.simoneweill.com.br

FONTE:  Wikipédia  

ALGUNS    PENSAMENTOS   DE   SIMONE  WEILL:

 

 

“O bem é aquilo que dá maior realidade aos seres e às coisas; o mal é aquilo que disso os priva.”

Simone Weil

 

“Deus só pode estar presente na criação sob a forma de ausência.”

Simone Weil

 

“A pureza é a capacidade de contemplar a mácula.” 

Simone Weil

 

“Não é a religião, mas a revolução que é o ópio do povo”

 Simone Weil

 

“A religião como fonte de consolação é um obstáculo à verdadeira fé; nesse sentido, o ateísmo é uma purificação.”

Simone Weil

“Nada no mundo pode impedir o homem de se sentir nascido para a liberdade. Jamais, aconteça o que acontecer, ele pode aceitar a servidão: pois ele pensa.”

Simone Weil

 

“Na automação coisas fazem o papel de homens, homens o papel de coisas. Aí jaz a raiz do mal”

 Simone Weil

 

“Magoar alguém é transferir para outrém a degradação que temos em nós.”

Simone Weil

 

“A dor é a origem do conhecimento.”

Simone Weil

 

“Jesus quer que a verdade seja preferida a Ele porque antes de ser Cristo Ele é a verdade. Se alguém se distancia dele para ir a verdade, não dará muitos passos sem cair sem seus braços.”

Simone Weil

 

Só uma coisa de Deus podemos saber: que Ele é o que nós não somos. Apenas nossa miséria é a imagem disso. Quanto mais a contemplamos, tanto mais O contemplamos”. Simone Weil

 

“O conhecimento de Deus é difícil para o rico, para o poderoso, porque ele é quase invencivelmente levado a crer que é alguma coisa. É igualmente difícil para o miserável porque ele é quase invencivelmente levado a crer que o rico, o poderoso, é alguma coisa”

 Simone Weil

 

 

Obras de Simone Weil em português

  • WEIL, Simone. A condição operária e outros escritos sobre a opressão. Org. por Ecléa Bosi. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
  • WEIL, Simone. A gravidade e a graça. São Paulo: ECE, 1986. Nova tradução: São Paulo: Martins Fontes, 1993.
  • WEIL, Simone. Espera de Deus. São Paulo: ECE, 1987. Edição Portuguesa: Lisboa: Assírio & Alvim, 2005.
  • WEIL, Simone. Pensamentos desordenados acerca do amor de Deus. São Paulo: ECE, 1991.
  • WEIL, Simone. Aulas de Filosofia. Campinas: Papirus, 1991.
  • WEIL, Simone. O Enraizamento. São Paulo: EDUSC, 2001.
  • WEIL, Simone. Opressão e Liberdade. São Paulo: EDUSC, 2001.
  • WEIL, Simone. A fonte grega. Lisboa: Ed. Cotovia, 2006.

 

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