Sorte ou Azar?

Crônica  de  Beto Pandiani

 

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O meu terapeuta de floral, o Cesar, um dia me falou em uma consulta algo que nunca mais saiu da minha cabeça: “A maior causa de mortes no planeta é a dúvida”.

Mesmo sem ler nenhuma pesquisa a respeito, aquela informação fez sentido para mim.
Depois deste dia nunca mais fui capaz de dissociar todo distúrbio e desequilíbrio à minha volta desta afirmação. Como eu entendi esta afirmação?

Sem nenhum controle vinham à tona memórias do passado, e eu pude revisitar vários momentos da minha vida aonde a dúvida me torturou. Percebi que a dúvida é muito amiga do medo, da falta de confiança e da angústia. A dúvida é bem semelhante a uma prisão que eu mesmo muitas vezes construí para lá usufruir do meu medo, e principalmente da falta de confiança que eu tinha na minha capacidade de realizar o que o meu coração me mostrava.

Quantas vezes inconscientemente criei na minha mente um cenário negativo por duvidar da minha capacidade de lidar com determinadas situações e emoções. Mas existe um segundo momento da dúvida que é mais grave, e é quando você se sente aprisionado por não confiar na vida, e nos desígnios da alma. Mal sabia que quando duvidava da generosidade da vida, minha alma estava escutando.

Hoje eu entendo que de fato eu estava quase insultando a minha alma, pois não sabia que ao escrever estas cartas mentais a ela me confessando, ela me daria mais experiências relacionadas a valor. A dúvida tem a ver com a ignorância sobre quem eu era, e isso era uma desvalorização imensa sobre as minhas possibilidades e os meus propósitos aqui na Terra. Seria o mesmo que ao partir com meu barco eu tivesse esquecido qual a minha rota, e no meio do mar me sentisse incapaz de velejar minha embarcação de volta para casa. Viagem perigosa não é aquela por mares tempestuosos, e sim aquela aonde não sabemos qual o destino. Todo barco que parte tem que chegar.

A lógica da alma age em oposição ao nosso ego e à nossa expectativa. Quanto mais eu me desvalorizava, mais experiências de desvalorização eu atraia. Não existe no mundo espiritual esmola. Existe compaixão, e a duras penas eu compreendi que a vida não sente pena de ninguém, e ela entende que o aprendizado deve acontecer pelo livre arbítrio de cada indivíduo. Posso afirmar que tudo que floresce neste planeta vem de dentro para fora. Foi assim comigo e é assim com todos.

O estimulo que a vida nos dá está sempre alinhado com a máxima generosidade do universo, mas muitas vezes ao me ver estagnado na energia do medo, da dúvida, da falta de confiança, eu confundi e distorci este conceito universal.
Muitas vezes confundi castigo com oportunidade. Aliás este mecanismo de erro e castigo é a base de toda a ideia de pecado. Não fomos educados a entender que erro é aprendizado, e talvez por isso sentimos medo de experimentar, e assim nos detemos na dúvida.

Desta falsa crença que nos falta algo criamos a entidade da sorte e do azar. Nominamos o que não queremos entender ou aceitar de sorte ou azar. Quando achamos que precisamos de sorte, navegamos pela negatividade da falta de confiança, pois cremos que não temos tudo dentro de nós, e assim nos descredenciamos das nossas responsabilidades para nos conectarmos com a criação coletiva da dúvida. Os jogos até parecem que existem para reforçar estas falsas crenças. Quando jogamos temos a esperança, mas também temos a dúvida. Se perdermos foi o azar. Muitas vezes o nosso insucesso é entendido como azar, e é neste exato momento que perdemos, e nos perdemos, assim nos distanciamos do aprendizado que transforma a experiência em oportunidade.

Estes pensamentos negativos coletivos criam entidades. Assim existem as entidades do ódio, da sorte, do medo, da cobiça e assim por diante. Quando sentimos esta emoção sem consciência, ajudamos a alimentar a entidade que se alimenta da nossa energia. Uma comparação seria como comprar um simples cigarro de maconha de um traficante. Este ato provoca instantaneamente uma conexão com toda a sombra do negócio narcotráfico, fazendo desta pessoa mais um colaborador deste sistema.

A dúvida é como um pântano, que quanto mais tempo a pessoa se detém nesta energia, mais presa ela fica. 

Eu não gosto de frases genéricas, nem tão pouco me atrai tentar resumir a vida em um conceito, mas fico tentado a expressar a minha compreensão sobre o que vivemos neste momento, e qual é o nosso desafio atual.

“Não nascemos para criar ou alimentar um mundo de desconfiança, mas é o que temos feito, basta olhar em nossa volta. A dúvida é o resultado da falta de confiança, e ela nos tira daqui, pois ela nos afasta do centro da vida.
Confiar é o primeiro degrau de uma longa ascensão, pois o desafio é navegar pelo sentir e não pela programação do pensar. Pensamos com o coração e traduzimos pela mente.

Fazer um voo cego é um ato de comunhão com a nossa alma, e o propósito deste capítulo é a reconstrução dos pilares da confiança. Nunca viveremos em um lugar justo se não confiarmos em nós e nos nossos semelhantes.

 

 

 

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É velejador , palestrante e escritor nas horas vagas com um livro de histórias, mais cinco de fotos de viagens já publicados e um livro de histórias infantis no prelo

 

 

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