“Stromboli” é uma produção de 1950, dirigida pelo grande cineasta italiano, Roberto Rossellini, com a estrela, Ingrid Bergman, contracenando com um elenco de não profissionais num esquema de filmagens realista e com poucos recursos de produção, típicos do neorrealismo italiano.

Nos anos 1950, a ilha vulcânica de Stromboli, na costa da Sicília, era ligada ao continente por apenas um barco semanal que saía de Nápoles. O trajeto demorava quatro horas e a produção do filme de Rossellini teve que alugar uma escuna para transportar equipe e elenco.

Na ilha, não havia água corrente nem eletricidade. O solo era árido, escuro e pegajoso. É nesse ambiente inóspito que o diretor joga sua atriz principal, a diva, Ingrid Bergman, depois de trazê-la direto de Holywood.

Considerado um dos grandes filmes do neorrealismo italiano, “Stromboli” acompanha as agruras de Karin, uma lituana presa num campo de refugiados ao fim da Segunda Guerra Mundial, Depois de ter seu visto de imigração para a Argentina negado, Karin (Ingrid Bergman) se vê obrigada a casar com Antonio, pescador simples e ir viver em sua ilha natal. Ao chegar lá, depara-se com um cenário desolador entre a pobreza material e a penúria humana.

A ilha de Stromboli funciona como uma metáfora perfeita e o clímax do paradoxo entre a beleza delicada e refinada da grande atriz sueca confrontada pelo primitivismo do local e dos costumes dos ilhéus. A cena de caça ao atum assistida por Karin é exemplar de como essa dura realidade respinga de modo violento e indelével na face branca e imaculada da atriz/personagem.

Talvez ninguém melhor do que a grande estrela de feições etéreas, mas personalidade fortíssima, para viver essa história forte e significativa. Uma mulher cujas paixões marcaram não apenas sua vida pessoal, mas toda a sua carreira artística, Ingrid colecionou maridos e amantes. Entre os amantes mais famosos, citam-se os colegas, Spencer Tracy, Gregory Peck, Gary Cooper e o diretor Victor Fleming. Já entre os maridos, o mais famoso dele foi o próprio Roberto Rossellini, por quem a atriz se perdeu de amores – e vice-versa –, justo nas filmagens de “Stromboli”, o primeiro filme deles, e ambos abandonam seus cônjugues da época (saliente-se que a do diretor, na época, era a fabulosa atriz italiana, Anna Magnani) para viver essa paixão incendiária que alimentou longamente os semanários de escândalos de famosos da época, de ambos os lados do Atlântico.

A experiência com Rossellini rendeu três filhos à atriz (uma delas a também atriz, Isabella Rossellini, quase tão bela quanto a mãe) e uma parceria de seis filmes que contribuíram para dessacralizar a grande diva de “Casablanca” e de “Por quem os sinos dobram?”, tornando-a uma mulher comum que interage com pessoas normais e aparece com pouca ou nenhuma maquiagem nas filmagens. Dessa forma Ingrid Bergman deixa de ser a estrela intocável do Olimpo terrestre para se tornar uma santa maculada, que atinge o divino e o sagrado pelas vias do sacrifício, como convêm à visão católica engajada do cineasta italiano.

E é assim, mas sem conseguir deixar de ser deslumbrante, que ela aparece em “Stromboli”, uma grande experiência cinematográfica.

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