THIAGO DE MELLO – “A Vida Verdadeira”

 

Amadeu Thiago de Mello (Barreirinha, 1926) é um poeta brasileiro.

Natural do Estado do Amazonas, é um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura regional.

 

 

Tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas. Preso durante a ditadura (1964-1985), exilou-se no Chile, encontrando em Pablo Neruda um amigo e colaborador. Um traduziu a obra do outro e Neruda escreveu ensaios sobre o amigo.

No exílio, morou na Argentina, Chile, Portugal, França, Alemanha. Com o fim do regime militar, voltou à sua cidade natal, Barreirinha, onde vive até hoje.

Seu poema mais conhecido é Os Estatutos do Homem, onde o poeta chama a atenção do leitor para os valores simples da natureza humana. Seu livro Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida rendeu-lhe, em 1975, ainda durante o regime militar, prêmio concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e tornou-o conhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos.

Link  para  acesso  ao  monumental e  universalista texto  na  íntegra  desse  grande  poeta   amazonense,  “Os  Estatutos do Homem”” :

 

 

 

 

A   VIDA    VERRDADEIRA 

Pois aqui está a minha vida. Pronta para ser usada. Vida que não guarda nem se esquiva, assustada. Vida sempre a serviço da vida. Para servir ao que vale a pena e o preço do amor

Ainda que o gesto me doa Não encolho a mão: avanço Levando um ramo de Sol Mesmo enrolada de pó Dentro da noite mais fria A vida que vai comigo É fogo: está sempre acesa

Vem da terra dos barrancos o jeito doce e violento  da minha vida: esse gosto da água negra transparente.

A vida vai no meu peito, mas é quem vai me levando: tição ardente velando, girassol na escuridão.

Carrego um grito que cresce Cada vez mais na garganta, cravando seu travo triste na verdade do meu canto.

Canto molhado e barrento de menino do Amazonas que viu a vida crescer nos centro da terra firme. Que sabe a vinda da chuva pelo estremecer dos verdes e sabe ler os recados que chegam na asa do vento. Mas sabe também o tempo da febre e o gosto da fome.

Nas águas da minha infância perdi o medo entre os rebojos. Por isso avanço cantando

Estou no centro do rio estou no meio da praça. Piso firme no meu chão sei que estou no meu lugar, como a panela no fogo e a estrela na escuridão.

O que passou não conta ?, indagarão as bocas desprovidas. Não deixa de valer nunca. que passou ensina com sua garra e seu mel.

Por isso é que agora vou assim no meu caminho. Publicamente andando Não, não tenho caminho novo. O que tenho de novo é o jeito de caminhar. Aprendi (o que o caminho me ensinou) a caminhar cantando como convém a mim e aos vão comigo. Pois já não vou mais sozinho.

Aqui tenho a minha vida: feita à imagem do menino que continua varando os campos gerais e que reparte o seu canto como o seu avô repartia o cacau e fazia da colheita uma ilha do bom socorro.

Feita à imagem do menino mas a semelhança do homem: com tudo que ele tem de primavera de valente esperança e rebeldia.

Vida, casa encantada, onde eu moro e mora em mim, te quero assim verdadeira cheirando a manga e jasmim. Que me sejas deslumbrada como ternura de moça rolando sobre o capim. 

Vida, toalha limpa vida posta na mesa, vida brasa vigilante vida pedra e espuma alçapão de amapolas, sol dentro do mar, estrume e rosa do amor: a vida.

Há que merecê-la

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