TOMIE OHTAKE – “Os Sonhos não Envelhecem”

Os 100 anos de Tomie Ohtake

 

 

O título acima é parte da letra da canção Clube da esquina 2, de Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges, uma das mais belas músicas da MPB. Diz muito a respeito de Tomie Ohtake, artista nipo-brasileira consagrada que irá soprar 100 velinhas no dia 21 de novembro, enquanto mantém seus sonhos e projetos em dia.

Resultado de imagem para monumento à imigração japonesaUma das maiores expressões da arte abstrata no Brasil, Tomie tem obras por todo o país e pelo mundo. Em São Paulo, se destacam vários trabalhos importantes da artista, como o Monumento à imigração japonesa (1988), escultura no canteiro central da avenida 23 de Maio; a colorida lateral de um edifício na Ladeira da Memória (1984), no Anhangabaú; As quatro estações (1991), painéis na estação de metrô Consolação; a bela escultura na entrada do Aeroporto Internacional de Guarulhos (2008); a imensa onda vermelha que se impõe no saguão do Auditório Ibirapuera (2004), entre outras tantas obras públicas que ela ama fazer. “Gosto de fazer obra pública porque mais gente pode ver”, ela diz, com seu sotaque japonês intacto, mesmo após 77 anos de Brasil.

Resultado de imagem para tomie ohtakeA sessão de fotos e a conversa com Tomie aconteceram em sua casa, no bairro do Campo Belo, em São Paulo, em uma tarde quente de setembro. Construída pelo filho, o arquiteto Ruy Ohtake, a morada de Tomie é um desdobramento de sua obra, com as várias esculturas em processo espalhadas pelos aposentos, as cores vivas nas paredes, as formas circulares e a luz natural que banha todo ambiente, facilitada pela imensa claraboia projetada por Ruy e pelas portas de vidro que dão para o jardim e a piscina.

 

Depois de uma cirurgia na coluna feita em 2006, que trouxe complicações e reduziu sua mobilidade, Tomie decidiu dormir em seu espaçoso ateliê com vista para o jardim. “É bom porque acordo já vendo as telas, e também o jardim. Desde que eu fiz a operação, tomei muito antibiótico por causa de uma infecção hospitalar e fiquei mais fraca. Comecei a dormir um pouco depois do almoço no ateliê, em uma cama. Achei ótimo, e comecei a dormir à noite também nesta mesma cama do ateliê”, diz a pintora, escultura e gravurista, que, apesar dos limites físicos da idade, como o uso da cadeira de rodas, se mantém imbuída de propósitos e objetivos: “A gente tem que ter um projeto, não é?”

Resultado de imagem para tomie ohtakeEla conta que acorda cedo, às 6h, mas fica um tempo pensando na cama. “Pensando nas pinturas”, explica. “Tomie é simples, elegante e naturalmente zen”, observa a nora Marcy, casada com o seu filho caçula, o designer Ricardo Ohtake, presidente do Instituto Tomie Ohtake. “A Tomie faz muita coisa, mas não tem um pingo de ansiedade. Quando ela diz ‘o dia está bonito’, isso fica grandioso, porque é muito verdadeiro, pleno”.

Sua meditação é sua arte – o trabalho e a vida de Tomie se entrelaçam nas formas e cores intensas. Para não se misturar com as obras, se veste de preto da cabeça aos pés. Vaidosa, tinge mensalmente os cabelos, cortados no estilo Chanel; já os óculos de aros pretos são sua marca registrada, feitos há anos pelo esteta ótico Miguel Giannini.

Agora que acabou de entregar o Monumento ao trabalhador, escultura de 12 m de altura e 20 toneladas de aço que foi instalada no Paço Municipal, em Santo André, a artista pensa na exposição para 2014, Branco sobre branco, que consiste em painéis coloridos – predominam o azul, amarelo, verde. As obras, como sempre, não têm títulos. “Sem nome é melhor, quero ver a pessoa sentir o trabalho”, explica.

Resultado de imagem para tomie ohtakeNascida em Kyoto, Tomie veio para o Brasil aos 23 anos para visitar um irmão. Impedida de retornar ao Japão devido à Guerra do Pacífico, em 1936, ela se estabeleceu em São Paulo, onde conheceu o marido, o engenheiro agrônomo Oshio Ohtake. Educada à maneira tradicional, priorizou a família e só começou a pintar aos 39 anos, com os filhos crescidos. No mês em que completa 100 anos, há uma série de mostras e homenagens à artista pelo país, mas a grande exposição de seu centenário é Tomie Ohtake – Gesto e razão geométrica, que abre no dia 22 de novembro, um dia depois do seu aniversário, e fica até 2 de fevereiro no Instituto Tomie Ohtake. Com curadoria de Paulo Herkenhoff, aborda as décadas de 1960, 70 e 80 e traz uma seleção de 60 trabalhos – a maioria pinturas –  dessa artista plástica que, apesar de ter nascido no País do Sol Nascente, é quase um sinônimo de identificação de arte do Brasil.

 

Este  artigo  é  uma  mais  do  que  justissima  homenagem  a  Tomie Ohtake no   dia  em  que  ela   completa  100 anos

 

 

(Chantal Brissac)   para  a  Revista  29 Horas

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