Um secador de cabelo no meio do caminho……

 Creio que sentença alguma poderia ser mais eloquente e impactante para sintetizar o que certamente está na raiz de muitos desgovernos e do atraso secular de nosso país em relação a países mais evoluídos de Primeiro Mundo, do que este inusitado aviso afixado em todos os banheiros de um hotel de classe média em S. Paulo: “ Favor não desconectar o secador. Evite constrangimentos. Equipamento com sistema de alarme na recepção”.

Resultado de imagem para shopping jkFato irreversível!…. um intruso pra lá de indigesto, o próprio constrangimento, acabara de se instalar com mala e cuia naquele quarto! E de uma forma que se revelava mais difícil de digerir ainda, por estarmos em pleno coração do Itaim Bibi, bairro de classe média alta, cujo valor imobiliário atinge cifras superiores a 15 mil reais por m2 e concentra vários dos mais afamados escritórios de advocacia, consultórios médicos, clínicas e hospitais, em uma das zonas comerciais mais valorizadas e sofisticadas do país, a poucos minutos de dois dos maiores templos de consumo de alto luxo, o Iguatemi Shopping da Av. Faria Lima e o JK Iguatemi. Se o hotel não era nenhum Plaza Athenee, as diárias de casal beirando os 200 reais tampouco poderiam qualificá-lo como uma dessas “tranqueiras” que têm como público-alvo as classes menos favorecidas  – num país cuja pirâmide social exibe despudoradamente desníveis tão abruptos – e que abundam nas cercanias das rodoviárias ou nos  “centrões” deteriorados  das grandes urbes brasileiras, e o incluem na rota de pernoite e hospedagem dos engravatados executivos, corretores veteranos e casais da classe média, quiçá da classe média alta, tão comuns na região; ou seja, gente como eu – e, talvez, como você… – o que, de imediato, me fez parafrasear o célebre poema de Drummond: havia um secador de cabelo no meu caminho!

De fato, aquela contundente advertência que a ninguém poupava, posto que direcionada a qualquer um que se hospedasse naquele hotel de alta taxa de ocupação, e que certamente não havia sido colocada ali por acaso, ainda mais se considerarmos que estava na absoluta contramão do que prega a mais elementar regra de bom senso para um estabelecimento que sobrevive de vender serviços, encantando e mimando seus hóspedes, num mercado profissionalmente bem qualificado e treinado para disputar concorrência, como é o ramo de hotelaria paulistana, forneceu mais uma pista inequívoca de que existe algo bem distante da ordem e do progresso na pátria amada.

Algo que temos preferido ignorar e preferimos apontar sempre na conveniente direção do outro; algo profundamente enraizado, a florescer logo abaixo da translúcida epiderme do civilizado convívio social, nos subterrâneos – não tão ocultos quanto gostaríamos – da alma coletiva desse nosso povo, e que é adubado pelo apelo ao “famoso jeitinho”, ou até pela certeza da absoluta impunidade: o culto licencioso à  “esperteza”  e às suas inúmeras subespécies.

Algo que é até cultivado com indisfarçada vaidade, como sendo uma elogiável faceta do caráter nacional e que, conhecido pelo nome de  “malandragem”,  já consagrou vários estereótipos famosos no campo da Literatura, da Música e de outras artes menos nobres; algo que leva gerações e gerações de nossos filhos e netos a tomar como modelo de sucesso, quer sejam desmiolados “funkeiros” que fazem da apologia das drogas e da violência sua filosofia de vida, ou até traficantes dos morros, porta-vozes dessa invertida ordem de poder, quase sempre acobertada por algumas  dessas  O.N.G’s  equivocadas, mas que provavelmente se julgam bem intencionadas  – certamente aquelas mesmas intenções que abarrotam o inferno – e que é baseada no oportunismo e no enriquecimento ilícito a qualquer preço, quando não no banditismo puro e simples, em detrimento dos verdadeiros heróis de nosso cotidiano: policiais e educadores, tantas vezes incógnitos e até agredidos ou insultados, que, a troco de um ignóbil salário ainda se esforçam por garantir uma necessária base de Educação e Lei, muitas vezes  às expensas da própria vida; algo que mereceu nos idos dos 70 uma elegia em forma de mídia televisiva, protagonizada por um dos ídolos futebolísticos do “escrete canarinho” tricampeão do mundo, na época,  e que, em decorrência ficou conhecida com o nome de seu divulgador, Gerson, sob cujo aval e “lei” éramos todos nós, brasileiros, convidados a “levar vantagem em tudo”; algo que faz um contraponto maléfico e muitas vezes obscurece nossas tão decantadas  e inegáveis virtudes (criatividade, alegria, celebração da vida, calor humano, etc…), enquanto nação com uma alma coletiva: o culto exacerbado ao individualismo e o consequente desprezo pelo bem coletivo, a tendência à anarquia cívica no comportamento social, a ética maleável ao sabor da conveniência e o pouco caso, quando não o desprezo absoluto pela Lei, algo potencializado pela mastodôntica enxurrada de ineficazes Leis despejadas arbitrariamente sobre a população que apenas sinalizam a ineficiência e a ausência de leme dos Poderes da Nação;algo gravado a ferro e fogo em nosso DNA, desde os primórdios de nossa História, ainda como colônia e a joia mais cobiçada da Coroa Portuguesa, que se alastrou pelo período do Império dos Orléans e Bragança, fincou sólidas raízes no Brasil República iniciado por Deodoro da Fonseca, formou o  “mar de lama” da Era Vargas, permaneceu latente na República Populista de Dutra, JK, Jânio Quadros e João Goulart (1946-1964) e durante a Ditadura Militar (1964-1985) e que vem grassando, agora epidêmica e num crescendo aparentemente irrefreável, na Nova República iniciada em 1985 com o “cacique”  maranhense,  José Sarney, tornada “caricata”, se não fosse tão patética, pelo “caçador de marajás” alagoano, Fernando Collor,  até atingir os limites intoleráveis da Era Lula/Dilma, que hoje atravessamos: a corrupção e os escândalos financeiros de altíssimo coturno!

Argumentar que tais características não são exclusivamente tupiniquins até é um fato, mas perdem sua função atenuante quando constatamos que a ênfase, a frequência, a intensidade e a abrangência dessas ocorrências, potencializadas exponencialmente pela Impunidade de um Judiciário “frouxo” que lhes fornece perpétuo salvo-conduto, nos alça como nação a patamares bem pouco desejáveis , quando submetidas a padrões de aferição que nos igualam a países como a Bósnia, S. Tomé e Príncipe e a Venezuela, por exemplo; da mesma maneira soa um tanto forçado o ponto de vista, com o qual muitos tentam justificar nossa suposta inclinação ao patronato do deus helênico, Hermes, como herança do colonizador português, num período que  se notabilizou também pelo saque às riquezas alheias e pela inclinação à improbidade no exercício da atividade pública,e que com tal exemplo, já nos primórdios de nossa existência como nação “civilizada”-  se  entendermos por civilização a que contemplou a cultura ocidental que subsistiu  – nos teria legado o gosto pelo  “vício descuidista” ; longe de querer  isentar o país colonizador de tais “desvios de conduta” históricos, apenas não há como não observar que, se isso fosse o motivo preponderante a justificar tal inclinação, a Austrália, por exemplo, não seria hoje uma das nações de mais elevado IDH – índice que mede o desenvolvimento humano – do mundo, com uma renda  “per capita” quatro vezes superior à nossa e com um índice de corrupção que segundo o I.P.C.  (Índice de Percepção de Corrupção instituído desde 1995 pela Transparência Internacional) está no topo de uma tabela na qual o Brasil ocupa posição pouco lisonjeira; afinal, o país que dá nome a esse continente austral, cuja colonização se iniciou a partir do apagar das luzes do século XVIII, com a finalidade de servir de colônia penal do monumental  Império Britânico – aquele mesmo que, pela sua extensão, foi conhecido como o Império no qual o Sol jamais se punha -, ao qual pertencia, foi destino e abrigo da mais formidável ralé de ladrões existente na época, o que nos levaria a intuir erroneamente que os  “aussies” (como são carinhosamente conhecidos  os australianos, em países de língua inglesa) atuais, herdeiros de tão pouco nobiliárquica descendência, seriam em grande parte fortíssimos candidatos a carregar no sangue uma herança e uma fama eticamente pouco abonadora, algo que é desmentido categoricamente pelos índices de ética e de probidade pública do país do rúgbi e dos cangurus. Da mesma forma, tentar jogar a culpa no fato de sermos uma nação cronologicamente jovem para justificar os índices vexaminosos que exibimos ao mundo, em aspectos fundamentais como Educação, Saúde e Qualidade de Vida, entre outros, também desmorona inteiramente quando observamos que, não só o citado país dos cangurus, mas também os Estados Unidos, o Canadá e a Nova Zelândia, entre outros menos proeminentes, são nações pelo menos tão jovens quanto a nossa, o que não as impede de ostentar índices superlativamente mais satisfatórios.

Embora já se observe uma saudável reação pública de profundo mal-estar e repúdio a “tudo o que de visceralmente errado está aí” – sem dúvida um passo à frente para o conformismo das massas, que durante anos permaneceu apática e omissa, ante a onipresente e despudorada impunidade que contaminou os Três Poderes da nação – , o que no entanto ainda sobressai  na  “manada”  de  inflamados e-mails e postagens que ganham espaço crescente em todas as redes sociais, além da natural indignação com os sucessivos desmandos e falcatruas das classes políticas dirigentes do país, é uma psicanalítica tentativa de autopromoção, quiçá uma espécie de catarse coletiva de culpa inconsciente, que optou por um bode expiatório óbvio e indiscutivelmente merecedor, mas que finge ignorar convenientemente a sábia sentença bíblica:  “Tira primeiro a trave do teu olho, antes de tentares extrair as do teu irmão” .

Resultado de imagem para protestos contra a corrupçãoNada contra protestar de forma civilizada e pacífica  – muito pelo contrário –  o justo repúdio às “maracutaias” e às permanentes e repetitivas evidências de corrupção denunciadas pela mídia, desde que tais manifestações não soem no mínimo desnorteadas, ao enquadrar a classe política como uma espécie de ET do mal, dissociado de nossas próprias características e ao ignorar o fato mais relevante e significativo: todos os políticos e dirigentes apontados são brasileiros, exatamente como somos todos nós! Da mesma maneira, e isso apesar de ferrenhamente contrário e avesso à ideologia retrógrada da classe política que domina o poder no país, desde o início deste século, não há como deixar de reconhecer em nome da justiça dos fatos, que, apesar de ter atingido agora níveis jamais vistos na nossa história,  já de si tão rica em episódios de tal natureza, a corrupção e o, digamos assim, “enriquecimento suspeito”,  já têm passe de livre trânsito em solo pátrio muito antes do atual ciclo de dominância petista e independem da coloração partidária e do carnaval de nomenclaturas que encabeçam as cédulas de votação eleitoral, cuja dança feérica mais parece outro artifício “esperto” para confundir a cabeça do eleitor, que, ingenuamente, julga estar votando em algo ou alguém que lhe traga uma brisa de renovação, mas que na real está sendo iludido com a vã promessa de mudanças, que de fato apenas contemplam novas siglas, que só “maquiam” os mesmos rostos, mas perpetuam o mais do mesmo nos castigados quesitos da Ética,  da probidade e da competência, logo que o objetivo é atingido

 

Resultado de imagem para protestos contra a corrupçãoE como poderia ser diferente, se continuamos a cultivar o mesmo apreço por algumas características viciosas que teimamos em preservar? Que renovação esperar se o celeiro que deveria fornecer exemplares mais probos e capazes, continua a ser abastecido  por personagens que cultivam os mesmos vícios que insistimos em condenar nos outros?   

 

Resultado de imagem para quimerasDe onde fica fácil inferir que, acreditar que as muitas mazelas desta nação poderão ser milagrosamente solucionadas se lograrmos conscientizar o “povão”  a votar com mais sabedoria nesse ou naquele candidato, ou na sigla partidária de nossa preferência, como muitos ainda acreditam, não passa de mais uma quimera que o tempo e a já experimentada alternância de poder se encarregaram de demonstrar como infundada, mesmo considerando haver significativas diferenças nas gradações, frequência e abrangência das, digamos assim, excessivas ocorrências extracurriculares que tradicionalmente secundam o exercício do Poder neste país-continente tropical, que a música brejeira já catalogou como abençoado por Deus, algo incontestável se considerarmos a prodigalidade de riquezas naturais  e a beleza extasiante da Natureza, existentes em toda a imensa extensão geográfica de nosso território, mas que por enquanto ainda clama por uma ocupação humana à altura de tal ufanismo.

 

Resultado de imagem para desonestidadeImprescindível se faz ressaltar mais uma vez que, se por um lado é totalmente errôneo e um disparate preconceituoso inferir que todos os brasileiros rezam pela mesma cartilha “envenenada”- da  mesmíssima forma que nada nos autoriza a enquadrar todos os políticos nacionais como corruptos e safados –  também é compreensível, perante tantas e tamanhas evidências, que aceitemos serenamente que existe algo fora da ordem nas escolhas que moldam aquilo que podemos designar como  o nosso “caráter coletivo” e que o nível de desonestidade e ilegalidade existente em muitas áreas da sociedade brasileira é alarmante – ainda mais que abalizados analistas afirmam que o que vem à tona é só a ponta do iceberg – o que nos autoriza a concluir que a raiz primária de nosso secular atraso, na exata confluência do alerta dado pelo bendito secador –  que, na verdade, apenas eleva a estridência dos hoje já tão banalizados avisos existentes em vários locais públicos a eximirem-se de qualquer responsabilidade pela perda ou furto de algum de nossos pertences, que, por se tornarem parte integrante do nosso cotidiano, nem despertam espanto ou a indignação que a sua presença reveladora  e acachapante deveria merecer –  deve ser procurada prioritariamente na mesma fonte de onde sempre brotou: o endeusamento de características que se amalgamaram à nossa cultura nacional e que, em casos extremos – mas não tão raros quanto gostaríamos de supor –  descambam para a má fé, a corrupção e o usufruto ilícito.

Portanto, a menos que acreditemos ser possível chegar a um hipotético “ shangri-la” de prosperidade, qualidade de vida e desenvolvimento, compartilhados por toda a população, carregando esses vícios nocivos alimentados exclusivamente a partir de escolhas pessoais, e que, desde o nosso processo inicial formativo como nação, nos vêm atravancando a trajetória rumo a um bem-estar mais ajustado a padrões já conquistados por outros países mais amadurecidos  – uma utopia que, na prática, equivaleria a dar algum crédito à bazófia do urubu capenga no sertão nordestino, que afirma poder voar apenas com uma asa enquanto se abana com a outra -, só nos resta entender inicialmente a extensão e importância do que precisamos modificar em nós, para em seguida “engolir” a frase do secador e apontar o lápis – pois, por mais que nos julguemos , justificadamente até, isentos de qualquer desses vícios, o fato de sermos passageiros de um mesmo barco chamado Brasil, interliga-nos automática e Resultado de imagem para expansividade de afetos do brasileiroinalienavelmente numa corrente comum, com tudo o que isso implica, para o Bem ou para o Mal – numa reflexão honesta, profunda e regeneradora, tanto pessoal quanto coletiva, que extirpe radicalmente pelo menos aqueles aspectos mais nocivos aqui mencionados e faça refulgir gloriosa a mais diamantina de nossas virtudes: a herança de espiritualidade latente que nos distingue e nos situa como berço prometido de uma Nova Era na qual a Solidariedade assumirá o papel central de garantir a todos uma vida próspera e digna, da forma que vaticinou o grande filósofo e sociólogo italiano Pietro Ubaldi (1886-1972): “A grande qualidade do Brasil, o que estabelece sua função vital, é o sentimento, o coração. Nesta terra estão as raízes daquela expansividade de afetos, que é a qualidade humana que, mais tarde, evoluindo, será a mais apta a sublimar-se no amor evangélico”. 

Mereceremos então ser conduzidos finalmente a uma eleição para a escolha de líderes sincronizada com aquilo que desejamos e pleiteamos. Afinal, por mais que relutemos em não enxergar, esse espelho sinalizado pelo aviso do secador apenas reflete a nossa própria imagem coletiva no outro e nada mais é do que o somatório da consequência das nossas escolhas como indivíduos, das quais não temos como nos alhear ou isentar!

 

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